“O termo “cinéfilo” aparece nos escritos de Riccioto Canudo no início dos anos 20: designa o amante informado de cinema. Há muitas gerações de cinéfilos com suas revistas e seus autores preferidos. A cinefilia teve um desenvolvimento considerável na França do pós-guerra (1945). Exerce-se por meio das revistas especializadas, das atividades de muitos cineclubes e da sua assiduidade às programações dos filmes de arte, a freqüência ritual a uma cinemateca, etc. O “cinéfilo” constitui um tipo social que caracteriza a vida cultural francesa em virtude do contexto cultural particular oferecido pela riqueza da exploração parisiense dos filmes, em particular: é fácil reconhecê-lo a partir de condutas miméticas; organiza-se em confrarias, jamais se senta no fundo de uma sala de cinema, desenvolve em qualquer circunstância um discurso apaixonado sobre seus filmes prediletos…
Convém distinguir essa acepção restritiva do “cinéfilo” em seu aspecto maníaco de apaixonado por cinema propriamente dito. (in A Estética do Filme, São Paulo, Papirus, 2006)
É uma acepção bem restritiva mesmo. Eu prefiro considerar “cinéfilo” – no sentido profundo que tem o radical grego filo (amigo) – o sujeito com uma paixão forte e abrangente pelo Cinema: ele assiste aos mais variados tipos de filmes e, como diz Aumont, procura manter-se o mais informado que puder sobre o universo da Sétima Arte, em todos os seus aspectos: estética, história, contextos (econômicos e sociais), personalidades (diretores, atores, etc).
Será que podemos encaixar nesses termos todas as pessoas que se consideram – ou são consideradas – cinéfilas? Eu mesmo, certamente, não me enquadro. Por isso, quero me apegar a apenas um dos atributos “cinelíficos” acima enumerados: o cinéfilo é aquele que assiste aos mais variados tipos de filmes. Discutir essa atitude é importante, porque ela é carregada de princípios éticos que podem se estender a qualquer pessoa que busque contato com obras artístico-culturais.
O cinéfilo, assim como qualquer apreciador de qualquer outra forma de arte ou cultura, deve se despir o máximo que puder dos seus preconceitos. Concordo que isso é difícil: certas atitudes mentais mesquinhas estão enraizadas em nós além de nossa percepção consciente. Mas façamos o esforço, pelo bem das artes.
Vamos entender bem: não estou falando de gosto. Cada um é perfeitamente livre para ter em mente e no coração seus cineastas amados e também os odiados. Pode-se gostar ou não do cinema iraniano, assistir ou não a filmes de Hollywood, por exemplo. Em uma conversa, não há problema algum em expressar juízos de valor subjetivos; entretanto, alguns desses “juízos” são tão carregados de certas emoções e infectados de certas idéias sutis, que beiram o limite da intolerância cega e taxativa. Muitas vezes ultrapassam. Em outros casos, a apreciação subjetiva mal se disfarça em uma análise que se pretende “objetiva”. É claro que a leitura 100% objetiva de um texto é uma utopia; estamos sempre condicionados, em maior ou menor grau, pela visão e experiência individuais. Mesmo assim, quando se quer fazer uma interpretação ou crítica “objetiva” de uma obra, devemos manter represado o oceano da nossa subjetividade o máximo que for possível.
Por isso, causa-me tristeza quando vejo um cinéfilo caindo em tais armadilhas. Faz-me acreditar que o indivíduo não gosta mesmo de cinema, de verdade. Já passei por algumas situações que podem servir de exemplo. Aqui vai uma:
Estava eu olhando o quadro que contém as críticas dos filmes, no Unibanco Arteplex (um dos guetos dos cinéfilos em São Paulo). Ao meu lado, há um casal decidindo que filme assistir. Então, testemunho o seguinte diálogo:
Ele (meio irônico): Olha, tá passando “O Dia Depois de Amanhã!” (Para vocês verem como isso já faz uns dois anos).
Ela (ríspida): Tsc! Mais um filme-catástrofe americano! Quero mais é que eles morram mesmo!
(Ele ri)
Entrei na sala para ver o meu filme (não lembro qual era), sem ter a coragem de olhar para os dois tipos que estavam ao lado, autores desse pequeno diálogo digno de Beckett.
Não conheço esse casal, não sei o tipo de relação que eles têm um com o outro. Mas esse diálogo me lembra de uma atitude que já testemunhei bastante: o preconceito cultural, particularmente aquele das pessoas “esclarecidas” contra a “indústria cultural”. Não é assunto deste post defender os valores artísticos e culturais que podem haver nas obras da indústria para entretenimento de massas; e lembro, de novo, que gosto cada um tem o seu. Quero apenas chamar a atenção para a “estupidez” de certas pessoas que, sem dúvida nenhuma, se julgam “inteligentes”.
Por isso, em uma conversa entre “cinéfilos”, é bom testar os interlocutores: no calor da discussão dos assuntos, tente encaixar na pauta a defesa de um filme ótimo da “indústria”, como Tropas Estelares (“Starship Troopers” – EUA, 1997, dir.: Paul Verhoeven). Simplesmente diga: “E Tropas Estelares, hein? Que filmão!” É delicioso analisar as reações nas pessoas que uma frase dessas pode provocar; elas darão fortes indícios de quem gosta de cinema de verdade, de quem não tem a mente tão amarrada – pela “indústria” das ideologias – quanto a massa manipulada pela outra indústria que se adora criticar.

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