A travessia por terreno inimigo de uma princesa guerreira disfarçada, um lendário guerreiro e dois bobocas covardes que “caem de pára-quedas” na história já é um tema muito estimulante, no sentido narrativo e mítico. É fácil imaginar várias versões dessa intriga em ambientes e épocas diferentes (até mesmo como ficção científica, sobre o que vamos falar daqui a pouco), dado seu caráter genérico. Na verdade, histórias assim, envolvendo princesas disfarçadas, porém, guerreiras e corajosas, são comuns e muito valorizadas no folclore tradicional japonês. Bem diferente da tradição ocidental dos contos de fada, onde a princesa é sempre a figura feminina, frágil e passiva, esperando para ser salva.
A Fortaleza Escondida se destaca dentre os outros “filmes de samurais” de Kurosawa pelo seu humor. Os dois pequenos ladrões covardes são como bufões, suas figuras trazem uma ruptura cômica no meio da epopéia.
E aí, já deu pra lembrar de algum outro filme a partir desses elementos? Se não, aqui vai: Star Wars (EUA, 1977). George Lucas é fã dos filmes épicos de Kurosawa. Os seis episódios da série que antigamente chamávamos Guerra nas Estrelas (“Star Wars”) apresentam vários elementos da obra do mestre nipônico, como, por exemplo, o corte na montagem em “cortina horizontal”. Contudo, de todos eles, o filme em que Lucas se inspirou mais diretamente é, com certeza, A Fortaleza Escondida. A princesa Leia corresponde perfeitamente à princesa Yuki; o personagem de Toshiro Mifune poderia ser Han Solo (aqui não há muita semelhança); e a principal referência é o elemento cômico-bufão, que no épico espacial é caracterizado pelos robôs C-3PO e R2-D2, e no nipônico por Matakishi e Tahei (embora haja diferenças de caráter: os dois últimos são ambos covardes, enquanto R2-D2 tem personalidade forte e coragem irrepreensível e C-3PO, apesar de medroso e nervoso, não é interesseiro nem trai os seus companheiros).
Não é a primeira vez que obras de Kurosawa, influenciadas pelas ocidentais, acaba inspirando-as. Os Sete Samurais deu em Sete Homens e um Destino (“The Magnificent Seven”, 1960, dir.: John Sturges) e Yojimbo (1961) inspirou Por um Punhado de Dólares (“Per um pugno di dollari”, Ita/Esp/Ale, 1964, dir.: Sérgio Leone).


Deixe um comentário