O Tao de Tarkovski

O Sacrifício (1986)

Ontem falei da lógica do pensamento mágico / mítico e da sua influência na estética da poesia e do cinema, citando como base as idéias de Edgar Morin na obra capital O Cinema Ou O Homem Imaginário. Hoje chamo ao microfone do Sombras Elétricas o grande cineasta russo Andrei Tarkovski, um dos meus “filmmakers” prediletos. O livro Esculpir O Tempo é, ao mesmo tempo, autobiografia, ensaio estético, confissão… enfim, é o coração, a mente, a vida e a obra de uma grande artista desnudados por ele mesmo.

Cito alguns trechos onde Tarkovski compartilha das visões e das idéias tratadas ontem, que eu acredito estarem na base da grande poesia, do grande cinema e da Arte como um todo.

Voltemos, porém, ao nosso tema: o que me agrada extraordinariamente no cinema são as articulações poéticas, a lógica da poesia. Parecem-me perfeitamente adequadas ao potencial do cinema enquanto a mais verdadeira e poética das formas de arte. Estou por certo muito mais à vontade com elas do que com a dramaturgia tradicional, que une imagens através de um desenvolvimento linear e lógico do enredo.
(…)
O material cinematográfico, porém, pode ser combinado de outra forma, cuja característica principal é permitir que se exponha a lógica do pensamento de uma pessoa. (…) A origem e o desenvolvimento do pensamento estão sujeitos a leis próprias e às vezes exigem formas de expressão muito diferentes dos padrões de especulação lógica. Na minha opinião, o raciocínio poético está mais próximo das leis através das quais se desenvolve o pensamento e, portanto, mais próximo da própria vida, do que a lógica da dramaturgia tradicional.
(…)
Quando falo de poesia, não penso nela como gênero. A poesia é uma consciência do mundo, uma forma específica de relacionamento com a realidade. Assim, a poesia torna-se uma filosofia que conduz o homem ao longo de toda a sua vida.
(…) Pensemos em Mandelstam, em Pasternak, Chaplin, Dovjenko, Mizoguchi, para nos darmos conta da imensa força emocional dessas figuras sublimes que pairam altíssimo sobre a terra, e nas quais o artista aparece não como um mero explorador da vida, mas como alguém que cria incalculáveis tesouros espirituais e aquela beleza especial que pertence apenas à poesia. Tal artista é capaz de perceber as características que regem a organização poética da existência. Ele é capaz de ir além dos limites da lógica linear, para poder exprimir a verdade e a complexidade profundas das ligações imponderáveis e dos fenômenos ocultos da vida. (…) Um artista pode alcançar a ilusão de uma realidade exterior, e obter efeitos cuja naturalidade os faça em tudo semelhantes à vida, mas isto será ainda muito diferente de examinar a vida que está sob a sua superfície.

Eis a explicação para o cinema “meditativo” que Tarkovski pratica. A fotografia e a montagem, em seus filmes, não estão meramente condicionadas à elucidação de uma narrativa. Tarkovski gosta de olhar, contemplar longamente as coisas, e estabelecer entre elas relações que intuímos serem bem peculiares ao seu espírito – ou ao espírito de todos nós.

É um cinema filosófico, mas desprovido por completo daquele racionalismo preponderante na filosofia ocidental. Tarkovski não cria tratados filosóficos; apenas ensaios, meditações, ou simplesmente poemas. O olhar e a filosofia do autor de Andrei Rublev estão mais próximos do pensamento oriental: os filmes de Tarkovski parecem muitas vezes profundamente taoístas. O Tao de Tarkovski: essa é a idéia.

Eis a prova:

Paul Valéry talvez estivesse pensando em Bresson quando escreveu: “A única maneira de alcançar a perfeição é evitar tudo que possa levar a um exagero consciente”. Aparentemente, nada além da observação simples e despretensiosa da vida. O princípio tem algo em comum com a arte Zen, na qual, da forma como a percebemos, a exata observação da vida transforma-se paradoxalmente em sublimes imagens artísticas. (…) E, quanto à poesia do cinema, Bresson, melhor que qualquer outro, uniu em sua obra a teoria e a prática, através da perseguição coerente e uniforme de um só fim.

Preciso dizer mais alguma coisa? Por hoje é só, pessoal.

Uma resposta para “O Tao de Tarkovski”.

  1. olápassei para pesquisar, como uma última pesquisa para meu trabalho de conclusão de curso de audiovisual. Estou tratando da espiritaulidade da arte em Tarkovski.e gostei bastante de uma sintese que fizera e apontara para o taoismo. Cansei de contar quantas vezes havia escrito a palavra harmonia no trabalho.E contibui pra mim finalizar. portanto, obrigado, passarei para mais leituras…abraçosVinicius

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