O filme de Ricardo Elias tem vários momentos ricos em cinema e em significado: o diálogo em que um motoboy compara o mapa da cidade de São Paulo ao rosto de um cão – aliás, os outros motoboys são muito bem caracterizados; o jovem Héracles que não é só um “boy”, mas um artista (o filme poderia se desenvolver inteiramente em torno dessa premissa); a fotografia criativa de certos planos, particularmente no uso da profundidade de campo e na cena em que Héracles discute com um guarda de trânsito e a câmera permanece fixa no rosto do jovem motoboy (jamais chega-se a ver o policial). Infelizmente, os momentos bons não formam um todo denso e coerente, uma composição harmônica.
Os 12 Trabalhos faz bem o que faz, mas poderia fazer bem mais de acordo com suas próprias pretensões “míticas”. O filme literalmente deixa muito a desejar, principalmente no final. A narrativa poderia ser mais elaborada e amarrada, de preferência puxando para o épico ou para o trágico. Da maneira como está, o roteiro tem várias pontas soltas, como o diálogo no começo entre Héracles e um antigo companheiro de crime, em que este procura ao mesmo tempo seduzir e chantagear o jovem recém egresso da Febem a continuar na vida criminosa: o espectador fica ansioso para saber se o protagonista resistirá ou não a essa tentação, se conseguirá vencer a provação de um dia de trabalho e ser contratado, mas nada disso é mostrado ou sugerido com força suficiente à expectativa criada pelo começo do filme. Entendemos (será mesmo?) que Héracles conseguiu o emprego apenas porque o seu primo Jonas morreu (num acidente de trânsito), abrindo uma vaga para motoboy na Olimpo Express. Isso é muito pouco. Também é pouco o efeito causado pela morte de Jonas: Héracles pilota sua moto loucamente até a praia (supomos que isso se deve ao fato de o primo Jonas ter cultivado o sonho de se mudar para o litoral), olha para o mar e o filme termina (!?) É sofrível ver o protagonista explicando, nesta última cena, a raiz mitológica do seu nome (mas sem fazer qualquer referência aos “doze trabalhos de Hércules”). Isto é, o filme não explica adequadamente suas referências míticas ao longo da própria narrativa, de modo cinematográfico e coerente como seria de se esperar, e aí joga-se uma fala em “off” no final para “eliminar” quaisquer possíveis dúvidas que tenham permanecido no espectador… A única coisa que presta no desfecho é a forte e bela cena da troca de olhares tensos entre Héracles – já montado na moto e de capacete – e os seus colegas de firma. Cinematograficamente bela. Então, ele parte para o litoral. Seria muito forçado tentar justificar este final como dotado daquela concisão sugestiva que busca evitar o melodrama e o didatismo; não devemos confundir os elementos mal amarrados e mal resolvidos com os necessários implícitos de que toda (boa) narrativa não deve abrir mão. Mas este é Os 12 Trabalhos: dirigido com firmeza, mas com roteiro frouxo.
O ponto mais nevrálgico de toda esta questão é que não adianta colocar uns “toques” mitológicos para dar “ares” mais “cults” ao filme (é isso o que parece). É preciso trabalhar mais, com mais densidade e profundidade, e sobretudo com mais coerência (seja interna, seja externa, ou seja, mais de acordo com o mito original) as bases míticas da história, assim como quaisquer outras referências, citações e intertextualidades de que se carregue uma obra. Em tudo isso, Os 12 Trabalhos é bem pouco orgânico. Parece artificial e banal. Parece Matrix Reloaded e Matrix Revolutions. Para que apelar ao mito? Só para mostrar o heroísmo do jovem pobre em sua luta vital e diária? Essa idéia poderia ser transmitida melhor sem precisar recorrer de modo superficial e banalizante a referências “cultas”. Se se quer colocar elementos “cultos” em um filme, que se faça isso de modo denso (mas não desnecessariamente complicado, pois isso já seria esnobismo), alta e multiplamente significativo, e (de novo o mais importante) com coerência.
Para encerrar: Orfeu Negro (Fra, Bra, Ita, 1959, dir.: Marcel Camus) e O Pagador de Promessas (Brasil, 1962, dir.: Anselmo Duarte) são os dois grandes exemplos do que este Os 12 Trabalhos poderia ter sido, o primeiro se aproximando da mitologia clássica, o segundo tendo por base a mitologia cristã. Nesses dois clássicos do cinema, a densidade e a universalidade do mito trabalha por alçar o particular a esferas maravilhosas, ao mesmo tempo em que o particular concede dimensão humana, real e sensível ao mito. Se as aventuras de “Héracles” tivessem apenas 10% desse caráter…

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