Sam Raimi, como bom artista ligado à tradição do horror, também é muito romântico no sentido em que coloca como tema central em seus filmes a luta do sujeito – dilacerado – contra si mesmo. Em todos os filmes da série “Evil Dead”, nós temos o protagonista Ash (Bruce Campbell) lutando ou contra partes de seu próprio corpo (a mão) ou contra um “clone” seu (em “Evil Dead 3”). Em “Homem-Aranha” (2001), é antológico o diálogo shakespeariano de Willem Defoe com o espelho. Na seqüência, temos o diálogo silencioso entre os tentáculos e o Dr. Octopus. Nesta terceira parte, há o uniforme negro, que faz Peter Parker voltar-se contra si próprio e, conseqüentemente, contra tudo o que acredita, ama e é leal.
A propósito, o EMO-ARANHA foi demais!… Nem acreditei quando vi Peter Parker, revoltadinho, assumir um visual todo “emo”, com direito até a lápis preto em torno dos olhos (!) Mas é um “emo” confiante e orgulhoso de si próprio, que caminha pelas ruas como John Travolta em “Embalos de Sábado à Noite” (1977).
Podem ver como hipocrisia, ingenuidade ou qualquer outro bicho; mas o diálogo final entre o Homem-Aranha e o Homem-Areia é uma provocante lição para os reacionários direitistas de plantão…
Mas nem tudo são flores nesta terceira e (quem sabe) última parte da franquia do “amigão da vizinhança”. O roteiro é inacreditavelmente maltratado, em comparação com os dois filmes anteriores. Parece que quiseram falar de muita coisa ao mesmo tempo, no mesmo filme. O resultado é a perda da “organicidade” da narrativa: fica tudo muito atropelado, superficial, sumário, e o que é pior, inverossímil. É duro de engolir, por exemplo, que o simbionte vai cair do céu justamente pertinho de onde Peter Parker estava, e que ele vai providencialmente pular em sua moto e assim entrar na vida do homem-aranha. O Venom é um personagem dos mais interessantes do universo dos quadrinhos. Deveria haver um filme onde apenas ele fosse o vilão, para dar conta do que ele merece. Imagine, por exemplo, todas as possibilidades temáticas da questão do simbionte em relação metafórica com o vício em drogas pesadas? Mas neste filme não há sequer sombra dessa dimensão…
A complicada relação entre Peter Parker e Harry Osbourne, que vinha recebendo altas doses de tensão e suspense nos dois filmes anteriores, teve um desenvolvimento e resolução simplesmente patéticos nesta terceira parte. Eu não discordo do fim, em si, que a coisa teve (até concordo); mas, para chegar em tal fim, a narrativa deveria ter trabalhado muito mais e mais profundamente este “plot”. De novo, fica tudo muito sumário, apressado e difícil de engolir (apesar de o filme ter quase três horas de duração). Dos vilões, apenas o Homem-Areia recebeu um tratamento interessante.
Mas, no conjunto (especialmente na parte exclusivamente cinematográfica), Sam Raimi e Peter Jackson são, atualmente, os melhores herdeiros do cinema fantástico e fascinante de Georges Méliès. O que mais podemos pedir da sétima arte?


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