Barbossa: “The world used to be a bigger place.”
Sparrow: “The world is still the same. There´s just less in it.”
Não lembro se as palavras foram exatamente essas, nem se o interlocutor foi mesmo Barbossa. Mas o recado está dado. O que é que há de “menos” no mundo? Justamente a fantasia do filme, o espírito aventureiro e intrépido do pirata (lembremos que no filme os piratas estão ameaçados de extinção), o cavalheirismo, o charme, a coragem, a irreverência, enfim, todos os valores que fazem uma boa fita de “capa-e-espada”. A série das aventuras e desventuras do pirata Jack Sparrow e companhia oferecem tudo isso com classe e bom gosto.
Entretanto, a fala de Sparrow assinala também os limites desta terceira (e última?) parte da lucrativa franquia. O que é que há de “menos” no filme? Roteiro. Pelo menos um roteiro inspirado, que alça altos vôos narrativos sem se desestabilizar, sem perder suas penas ao longo do caminho, quanto menos cair violentamente ao chão ao invés de arquitetar um pouso suave.
A graça das personagens está toda lá, as cenas de encher os olhos também, mas a história acaba cansando na longa duração. É decepcionante, tendo em vista o trailer de fazer prender a respiração e trazer lágrimas aos olhos. Pois é no trailer que vemos já o melhor do filme: imagens de grandeza épica e fantástica absolutamente espetaculares:
– O pequeno barco chegando ao “fim do mundo”, onde o oceano inteiro desemboca numa única e infinita queda d’água; quem foi que disse que a Terra é redonda, hein? Essa imagem trabalha com questões do imaginário coletivo que até hoje podem perturbar algumas crianças, como: quando o navio desaparece no horizonte do mar, será que ele caiu da “borda” da Terra? Essa dimensão mítica é o melhor no cinema-espetáculo, nunca me cansarei de assinalar isso.
– O Pérola Negra (navio disputado por Sparrow e Barbosa) “navegando” nas dunas do deserto do reino dos mortos. Só o paradoxo dessa imagem já faz dela antológica. Pena que eu esperava que essa cena estivesse inserida num contexto mais, digamos, interessante, como, por exemplo: os piratas conduzindo o Pérola Negra através do deserto e engalfinhando-se numa batalha contra outra nau ali presente… (Por isso é que o trailer é o melhor do filme).
– A volta para o reino dos vivos, quando o mar e o céu invertem de posição, graças ao sol poente que os une; assim, o Pérola Negra deve emborcar para manter-se (logo em seguida) acima da linha d’água. Tudo isso é altamente poético, num sentido literário mesmo! Azar dos dois piratas bufões que não sacaram direito a lógica das antíteses e dos paradoxos – mas já falaremos deles. De qualquer maneira, toda essa questão da difícil e necessária jornada ao mundo dos mortos e o conseqüente – e mais difícil ainda – retorno ao plano vivente é por demais carregada de conteúdo épico (basta lembrar Homero, Virgílio e Dante, apenas para ficar nuns poucos e “menos importantes” casos), mitológico e arquetípico para ser sumária e superficialmente tratada por este filme. Faltou aí o cuidado do trabalho diligente associado à inspiração, ao talento e à pesquisa; não precisa sair nada erudito, mas do jeito como foi feito saiu bem “pobrinho”.
A batalha naval final dentro do gigantesco maelstrom dá a dimensão visual para o pesadelo do famoso conto de Edgar Allan Poe, mas carece tão terrivelmente de uma justificativa narrativa… Teria sido apenas um capricho da deusa Calipso? E para quê, já que não influenciou em nada nos rumos da batalha e na vitória do vencedor? Enfim, este é Piratas do Caribe: No Fim Do Mundo: uma antologia de imagens memoráveis, mas mal justificadas e mal encadeadas. Os diversos “sub-plots” foram resolvidos ridiculamente, e o “plot” principal não fica muito à frente. É o mesmo pecado de Homem-Aranha 3 e das seqüências de Matrix (estes, exemplos já clássicos): se quer dizer muito, se quer mostrar tudo, mas acaba-se perdendo a mão.

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