No entanto, há um momento em que o filme bem que poderia ficar sério: quando abate-se sobre o nosso pobre planeta azul a ameaça da aniquilação total, a ser perpetrada pelas mãos do impiedoso Galactus, com a ajuda do Surfista Prateado, o fiel arauto. Ganharíamos muito em dramaticidade se as horrendas preparações que o Surfista faz para a vinda de seu mestre fossem mostradas, em algumas cenas, do ponto de vista da população comum; isso seria particularmente interessante no final do filme, quando o Juízo Final torna-se evidente e (aparentemente) irreversível. Aqui, os roteiristas poderiam ter se inspirado no terceiro volume da maravilhosa série Marvels, publicada nos anos 90, que reconta a história da vinda de Galactus sob o ponto de vista das pessoas comuns, testemunhas passivas de uma verdadeira batalha entre deuses e titãs nos céus acima de suas cabeças.
A violentíssima antítese entre as proporções do ser devorador de mundos e as dos desafortunados porém corajosos terráqueos (dentre eles o quarteto fantástico) por si só já seria belíssima… Na história original, aos apelos do Sr. Fantástico para que poupasse a Terra, Galactus simplesmente joga o seguinte argumento: por um acaso vocês, humanos, atenderiam aos apelos de formigas?… Infelizmente, o filme não alcança tais altitudes. Mesmo assim, a cena que mostra a imensa cratera surgindo no rio Tamisa, no coração de Londres, é impressionante, assim como a perseguição do tocha Humana ao Surfista Prateado, verdadeiro tour de force.
Enfim, as significações alegóricas presentes nos gibis foram deixadas de lado. Nas histórias, Galactus só “consome” planetas cuja civilização tenha chegado em um ponto no qual esgotará inevitavelmente todos os recursos naturais, causando, junto com a poluição, o fim de si mesma – quiçá do planeta como um todo. Alguns fãs mais xiitas podem reclamar de Galactus não ser mostrado em sua forma original (que vem dos anos 60): um robô gigantesco, ou homem numa armadura robótica. Mas isso, em nossos dias, no cinema ainda por cima, ficaria meio ridículo, não? Convenhamos… A solução neste filme é ótima: Galactus é uma força animada da natureza, de proporções absolutamente gigantescas e de modo algum antropomórfica.


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