Este filme está repleto desses pequenos detalhes que, como eu disse ontem, são a marca estilística de George Romero. O início desta quarta (e última?) parte da saga dos mortos vivos é (quase?) tão estimulante quanto à abertura das duas fitas anteriores – só mesmo A Noite dos Mortos Vivos não tem um começo tão forte. Sem contar que apenas Terra dos Mortos nos dá um “update”, explicando o início e o andamento da tragédia (inclusive o fato de que o fenômeno é mundial), enquanto aparecem os créditos iniciais – não-interligados às primeiras imagens do próprio filme (o que também é novidade na série). De qualquer maneira, ao longo do filme inteiro, parece que sentimos por trás das imagens – principalmente daquelas que mostram os “pequenos detalhes” – a presença viva do cineasta, seu sorriso irônico que aponta com muito fascínio e interesse certas “coisas” para nós… Reconhecemos essa marca de estilo nos diretores que se envolvem mais pessoalmente com a sua obra, naqueles artistas que são muito movidos por uma quase fixa idéia pessoal. Dentre esses, um que eu também admiro muitíssimo (tanto porque ele também é profunda e sutilmente irônico) é Jacques Tati.
Vinte anos depois de ter feito seu último filme de zumbi, e depois de incontáveis epígonos, homenagens e picaretagens diversas, George Romero realiza Land of the Dead para mostrar que ainda está vivo e ainda é o mestre – deixando bem claro também por que ele é o mestre. O caráter humano dos mortos vivos, já esboçado em Dia dos Mortos, aqui adquire sua maior força. É incrível a figura do “Big Daddy” – o frentista que, como um autêntico líder político, conclama os seus companheiros e os guia rumo à “revolução”, ou seja, à invasão do condomínio fechado onde os vivos acreditam viver em plena segurança, como se nada de mais estivesse acontecendo lá fora… Os zumbis já aprenderam até mesmo a se comunicarem entre si de modo rudimentar (apesar de, no filme anterior, o zumbi Bub chegar pronunciar uma sentença completa: “Olá, tia Alicia!”).
O conteúdo político subversivo – marca registrada de Romero – continua: chamam muito a atenção as imagens do “Big Daddy”, desesperado, tentando libertar seus camaradas da ilusão das “sky flowers” (os zumbis também são massa de manipulação da “indústria cultural”). Os gritos de conclamação e de revolta de “Big Daddy” – principalmente quando ele vê seus correligionários sendo mortos – são surpreendentes. Do lado dos vivos, há um personagem que corresponde exatamente – em termos políticos – ao “Big Daddy”: trata-se de Mulligan, o “agitador”, que prega nas ruas da “periferia” contra os abusos e desmandos da “high society” (os poucos felizardos que vivem num arranha-céu ultra protegido e com todos os confortos da “antiga” civilização). Isso sem contar a “jihad” do personagem de John Leguizamo contra o de Dennis Hoper (o próprio diz, nos extras do DVD, que ele e o diretor basearam o seu personagem em Donald Rumsfield e na administração Bush).
Mas as melhores cenas são as da invasão desta “Alphaville” pelos mortos vivos: George Romero filma cada imagem com gosto. O expectador sente isso. É a verdadeira revolução… Eu chamei esse condomínio fechado de Alphaville: não é ele – e o próprio mundo de Terra dos Mortos – a própria e quase exata imagem do Brasil? É incrível a imagens dos passarinhos de plástico com seu canto eletrônico no hall do edifício… Não é esse o mundo e a vida das nossas elites? Ah, a ironia de Romero centrada nesses pequenos detalhes…


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