Pensando nessas características, não podemos deixar de nos lembrar do realismo mágico na Literatura, particularmente na obra de Júlio Cortázar. Dando lenha à sanha de enquadrar (ou aproximar) tudo dentro de gêneros, vamos ter que dizer que Possuídos não é um filme de horror; é um filme realista-mágico / fantástico. Esse gênero, que guarda proximidades com o surrealismo, é para mim muito mais assustador do que aquele terror propriamente sobrenatural de um Romantismo pueril, ou aquele terror psicopata / sádico que (não é de se surpreender) agrada tanto a nossa época pós-moderninha. Dizer que películas do tipo Jogos Mortais são de terror psicológico é uma besteira própria de quem não sabe (ainda) a real e profunda dimensão do “psicológico”. É aí que filmes como Possuídos ganham peso.
A obra de Friedkin – assim como as do realismo mágico ou as do surrealismo – mergulha fundo na psicologia do indivíduo e da sociedade, cutucando com vara curta as feridas sempre abertas do inconsciente (seja individual seja coletivo) ainda não integrado de maneira saudável ao consciente iluminista. Essa dissociação consciente-inconsciente se manifesta na vida e na cultura de formas variadas. Possuídos é uma delas. Este filme naturalmente mexe com temas sócio-políticos muito contemporâneos e muito pertinentes – o realismo mágico e o surrealismo também têm um engajamento social, já que o inconsciente também é coletivo – mas o buraco é muito mais embaixo (ou mais em cima, quer dizer, o problema está na cabeça das pessoas). Isso nos faz especular o quanto de problemas sociais e políticos são, no fundo, problemas psicológicos.
É nisso que Possuídos assusta, e assusta mais do que muitas coisas aparentemente mais assustadoras por aí. O filme nos coloca em contato com questões muito interiores que estão longe de serem resolvidas, por exemplo: a difícil integração – inclusive psicológica – do indivíduo na coletividade; a obsessão para com o corpo, a conquista e a manutenção dos relacionamentos afetivos e amorosos; o medo paranóico que o “eu” tem de um “outro” diferente, desconhecido e incompreendido. Essas coisas todas não despertam em nós um mero susto; elas provocam uma sensação de horror ao mesmo tempo depressivo e ansioso, que nos envolve e sufoca até os limites do pânico. Repito: a sensação é similar à de quando entramos em contato com certas obras do realismo mágico e do surrealismo, ou quando vemos filmes do tipo Apocalipse Now (de Francis Ford Coppola) ou Cidade dos Sonhos (de David Lynch). O mal-estar psíquico é muito grande.
A estética com que todo esse conteúdo é apresentado é digna de admiração, porque contribui muito para o efeito provocado no espectador. Como eu disse no começo, William Friedkin filma com o cuidado, com a paciência e a simplicidade de um lavrador. A fotografia não tem aquelas descolorações, aquelas granulações ou outros artifícios “fáceis” do tratamento de imagem que não passam de purpurina nos olhos de muitos filmes “de horror”. É claro que alguns chicotes (movimentos de câmera rápidos) e trepidações no enquadramento incomodam um pouco (para mim, que sou classicizante, eu admito), mas são mínimos esses elementos dinâmicos de vídeo-clipe. O ritmo do filme é lento e despretensioso: durante a primeira metade a gente se pergunta se é realmente um filme de terror. Mas essa demora só contribui para aumentar o choque violentíssimo que a segunda metade (e especialmente o final) provocará no espectador. O diretor vai mesmo plantando, quase que imperceptivelmente, as sementes do horror; e elas vão crescendo lentamente, de uma maneira que nós não calculamos o resultado absurdo de tudo, mas uma hora nós nos descobrimos envolvidos incondicionalmente numa loucura irremediável e irreversível.
O ótimo trabalho do casal de atores centrais: Ashley Judd (vivendo Agnes White) e Michael Shannon (como Peter Evans), e dos poucos coadjuvantes: Harry Connick Jr. (Jerry Goss), Lynn Collins (R. C.) e Brian F. O’Byrne (Dr. Sweet) e o cenário (a maior parte da narrativa se passa num quarto de motel de estrada no meio do deserto do meio-oeste americano) contribuem poeticamente para a criação da atmosfera psiquicamente hermética da história. Todo esse fechamento excludente (em torno de poucos atores, num cenário único, pequeno e fechado – o filme foi baseado numa peça teatral), o cerceamento, o sufoco claustrofóbico de um meio (psíquico ou social, interior ou exterior), compõem o clima, o assunto e a mensagem de cunho psicológico do filme.

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