Assim, quando me sentei para ver Zodíaco (“Zodiac”, EUA, 2007, dir.: David Fincher), não pude deixar de esperar que o filme correspondesse aos (interessantes) padrões das fitas de serial killer, principalmente Seven, Os Sete Crimes Capitais (“Seven”, EUA, 1994), obra-prima do diretor David Fincher. No entanto, que decepção! Zodíaco passa longe de Seven. Mas essa decepção – sem ironia alguma – é o melhor do filme. O diferencial de Zodíaco é que a sua história é muito longa (em torno de 22 anos), confusa, aberta, com várias pontas soltas, sem qualquer definição, sem qualquer significado definitivo, sem desfecho justo ou injusto, sem nem mesmo a famosa justiça poética, sem grandes heroísmos, ou grandes vilanias (a vilania aqui é muito mesquinha e incoerente)… Enfim, a história de Zodíaco é como a própria vida. A vida que é uma obra aberta demais, complexa demais – mas sem qualquer organização perfeitamente lógica ou racional (isso é o pior). A vida não tem aquela grandeza épica, as coisas na vida não se encaixam perfeitamente como numa tragédia clássica, nem tudo na vida se resolve (pelo melhor ou pelo pior). Nesse sentido, a vida não imita a arte. Nem a arte imita a vida. Exceto Zodíaco.
Quando olhamos para uma experiência da vida e dizemos: “Isto bem que daria um filme!”, certamente que essa experiência foge ao comum e cotidiano, isto é, foge à própria vida, vai além dela; por isso, nós nos interessamos, guardamos na memória tal acontecimento e sentimos a vontade de imortalizá-lo numa obra de arte. Assim, em relação a Seven, Os Sete Crimes Capitais, se fosse uma história real ainda não levada ao Cinema, com certeza diríamos que daria um ótimo filme (naturalmente um filme narrativo, com os fatos dramatizados). Porém, não podemos dizer o mesmo de Zodíaco. Filmes de “serial killer” normalmente descobrem verdades, chegam a certezas altamente significativas (isso sem falar na “justiça”) que nós desesperadamente desejamos para as nossas próprias vidas. Mas, como eu disse, a vida nem sempre nos concede esses prêmios. Por isso, muitas vezes o melhor é esquecer, deixar para lá, deixar envelhecer, que o tempo tudo arrasta e apaga e supera, “live and let live” – ou “live and let die” (que é o caso aqui)… Isso é o que recomenda o detetive David Toschi (interpretado por Mark Ruffalo) ao jovem e obsessivo investigador amador Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal).
Dessa maneira, Zodíaco está mais para um documentário do que para um filme dramático. A decepção de que eu falei ocorre quando se vê o filme como um suspense policial de ficção, ou, pelo menos, como um enredo baseado em fatos reais onde estes foram romanceados para ficarem mais interessantes. Nada em Zodíaco é feito para ficar mais “interessante”, de acordo com a lógica tipicamente hollywoodiana. Desde Seven, o cinema de David Fincher é um cinema de choque; mas esse choque sempre se pautou pelo inusitado, pelo bizarro, pelo grotesco, pelo violento ou até mesmo pelo fantástico (caso de Alien 3 e de Clube da Luta). Em Zodíaco, o que choca é a ausência desse “choque”; o que choca aqui é a própria vida, absolutamente sem graça, incoerente e frustrante, que nos é jogada na cara. A ausência de respostas, de soluções, de justiças, de verdades, de certezas, de sentidos, de razões… Isso é mais aterrador do que qualquer história romanesca, rocambolesca, mirabolante e fabulosa de “serial killers” sádicos e megalomaníacos. Eu sequer diria que Zodíaco tem um anti-clímax, pois isso já seria um clímax, equivalente a ele, assim como a anti-matéria é equivalente à matéria. Zodíaco simplesmente não tem nada. É um vácuo completo. Quem quiser, que chame isso de niilismo.

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