Aqui começa a intersecção de planos que dá a grande riqueza ao filme. A viagem de Heitor ocorre por um espaço exterior que é mais do que alegoria do espaço interior, ambas as dimensões estão profunda e indissociavelmente conectadas como num organismo simbiótico. Mas essa ligação se dá através de um choque, de uma violência que muitas vezes não percebemos – o indivíduo sequer percebe a ligação semântica entre o objetivo e o subjetivo. Como diz o poeta Drummond, em A Flor e A Náusea: “O tempo pobre, o poeta pobre / fundem-se no mesmo impasse.” Esse impasse é que marca o movimento de A Via Láctea. Heitor não se soluciona assim como a cidade não se soluciona. O indivíduo está perdido em si mesmo assim como a cidade está perdida em si mesma. E o que tem mais significado poético: o indivíduo tanto se encontra quanto se perde na cidade assim como a cidade se encontra e se perde no indivíduo.
As muitas referências e citações poéticas atestam esse fundir de planos em princípio opostos e independentes, mas que, não obstante, procuram desesperadamente agir de alguma maneira digamos “especial” um no outro, repelindo-se e identificando-se a um só tempo, um tempo quântico, numa fração indefinível de segundo entre o agora e o depois, entre o aqui e o ali, entre o eu e o outro (o mundo), entre a vida e a morte. A Via Láctea equilibra-se entre os limites. O magnífico poema Chuva Interior, do poeta Mário Chamie (pai da diretora), expressa muito bem as relações e as correspondências entre o interior e o exterior. Dentre todos, é um dos dois poemas centrais do filme, quase um mote:
“CHUVA INTERIOR
Quando saía de casa
O outro texto-mote é o poema Campo de Flores, de Carlos Drummond de Andrade, do qual o personagem de Marco Ricca destaca a primeira estrofe:
“Deus me deu um amor no tempo de madureza,
A cena do diálogo entre Heitor e o bandido que aborda o seu carro, parado no farol, é a mais sublime, considerando o “diálogo” entre o universo subjetivo e o universo objetivo no qual o filme fundamenta a sua construção. É nela que o filme mais revela a força de sua alma. Eu disse no começo que A Via Láctea é um fluxo de consciência, técnica marcante da narrativa literária moderna. No filme, esse fluxo caracteriza-se como um delírio (daydream), mas aquele delírio específico do poeta que vai aos poucos e trabalhosamente percebendo a natureza da chuva interior, conforme vai contemplando a “chuva exterior”. Todas as cenas da jornada dantesca de Heitor mostram esse processo, o processo da descoberta interior através da viagem exterior. Viagem exterior que, ainda que fosse apenas uma manifestação delirante / alegórica da viagem interior, não derrubaria o valor objetivo e a existência factual e independente do mundo exterior. Não é um tema original, mas é um dos mais pertinentes e universais da história humana, já bastante trabalhado pela Literatura e também pelo Cinema.

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