Desse modo, dentro da anti-lógica das impressões, alguns filmes merecem, mais do que comentários ou críticas, apenas adjetivos. E adjetivos dos mais simples, que não revelem necessariamente juízos de valor abstrato – racional ou emotivo –, mas que apelem às cinco sensações (visão, audição, olfato, tato e paladar). Também pode (e deve, em alguns casos) ser trazida à mesa a sexta sensação (intuição), cujo apelo é dos mais importantes para que se apreciem (ou se compreendam) certos filmes. Não obstante, o mais interessante é puxar adjetivos de outros e dos mais variados campos de significação, misturando-os e ressignificando-os. E, pelo amor de Deus, que se passe longe de superlativos. É a mais grotesca – e comum – tentação da crítica cultural.
Mas chega de tanta divagação. Aliás, eu só faço isso porque considero a experiência do cinema mais importante do que qualquer outra forma de se pensar a sétima arte. Por isso mesmo, eu digo: Em Paris é um filme gostoso. Não que isso signifique muita coisa; eu não disse que é um filme delicioso. Apenas gostoso. Não me entendam mal. E eu também não estou dizendo que é um filme gostoso de se ver, ou de ouvir, etc. É apenas gostoso, repito. Em Paris (França / Portugal, 2006) é a quarta produção do mais ou menos jovem Christophe Honoré (37 anos). Como é comum no cinema francês – ainda mais na linha da “nouvelle vague” – o enredo tem grande e pouca importância. O filme acompanha por um dia a vida do jovem Paul (Romain Duris) que acaba de perder (definitivamente?) seu grande amor, mergulhando por isso numa depressão um tanto quanto perigosa. Tentam ajudá-lo o irmão mais novo (Jonathan, vivido por Louis Garrel), que é um “bon vivant” do tipo irrecuperável, e o pai (interpretado por Guy Marchand), um (intelectual?) aposentado “desencanadão”.
Mas a história tem mais meandros e o filme a conta usando maneiras interessantes e inusitadas que vão além de uma sinopse elementar – e nem cabem a ela. Ao mesmo tempo, o aspecto literário da fita não é sua maior preocupação artística. O enredo, apesar de elaborado, é deveras aberto – ou desencanado, melhor dizendo; não há qualquer conclusão a respeito dos personagens ou de suas vidas – é apenas um recorte de quase 24 horas em mais um de seus dias (com alguns “flashbacks” explicativos). Mais ou menos (mais para menos do que para mais, na verdade) ao gosto do ideal preconizado por Cesare Zavattini, roteirista que foi um dos ideólogos do Neo-Realismo italiano – que, por sua vez, foi uma das grandes fontes de inspiração para a Nouvelle Vague francesa, com a qual dialoga bastante o filme de Honoré. Os diálogos, que são elemento central na estética da fita, têm aquele aspecto bastante poético / literário – tudo muito de acordo com a tradição do cinema francês. Nisso, a arte fala mais alto do que a realidade, já que ninguém fala ou conversa dessa maneira tão afiada como nos filmes franceses (pelo menos, eu acredito que não; a não ser que os próprios franceses o façam).
Mas ainda não chegamos na alma de Em Paris, que, conforme eu disse, não está na palavra. O que mais faz este filme valer a pena é a “alegria de filmar” mostrada por Christophe Honoré, conforme enxergou a crítica da famosa revista / bíblia cinematográfica “Cahiers du Cinema”; descoberta essa repassada a nós pela “Folha de S. Paulo” em matéria publicada no dia da estréia da película. Essa alegria de filmar (talvez possamos rastrear até aí os porquês de eu ter chamado o filme de “gostoso” no começo deste texto) remete Em Paris – também conforme a “Cahiers…” e a “Folha…” até bem próximo da nouvelle vague francesa dos anos 60, principalmente a Jean-Luc Godard e mais principalmente ainda (na minha opinião) a François Truffaut. O próprio diretor, em entrevista, confessa: “A felicidade de filmar, ou de filmar à francesa: tema pequeno, predomínio do tom de comédia para tratar de coisas sérias…” Pode-se reconhecer a alegria, a paixão, em alguns lugares. Por exemplo:
– na dinâmica da fotografia, que insere os personagens no cenário tomando muito cuidado com a composição do quadro, emoldurando de maneira também muito artística o trabalho dos atores e os diálogos; como um poema, o filme entrelaça palavras, sons e imagens num equilíbrio impressionante (ou impressionista – impressionismo que, igual ou diferente, está na alma do cinema francês desde Abel Gance e Marcel L’Herbier);
– no ritmo também dinâmico, leve, descontraído e mesmo descontínuo (tributo a Godard?) da montagem;
– na trilha sonora, carregada de notas de piano ou metais que dão leves pinceladas emocionais às cenas e também de bastante “indie rock”.
– nas referências, explícitas ou não, a filmes clássicos e recentes do cinema francês e internacional, fazendo desta mais uma daquelas fitas de “cinéfilo”.
Para terminar, volto às definições sucintas (mas não sumárias): se a vida fosse uma canção, Em Paris seria o vídeo-clipe dessa canção. Assim como os melhores filmes de França. Esses filmes são carregados de música; porém, ainda que fossem silenciosos, seriam prenhes de musicalidade. Como? Pense na câmera (e na ilha de edição) como um instrumento musical. Ou pense na – essa sim deliciosa – frase de Abel Gance: “O cinema é a música da luz”.

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