Este enredo é uma adaptação do romance sci-fi “Eu Sou A Lenda”, de Richard Matheson (publicado pela primeira vez no Brasil ano passado, graças ao iminente filme, pela Editora Novo Século). Matheson escreveu, além de romances e contos, episódios da série de TV “Além da Imaginação” e o roteiro de “O Duelo” (adaptação de um conto seu dirigida por Steven Spielberg). “I Am Legend” já ganhou duas versões para o cinema: a primeira em 1964, chamada Mortos Que Matam (“The Last Man on Earth”), com Vincent Price no papel principal; a segunda em 1971, intitulada A Última Esperança da Terra (“The Omega Man”), com Charlton Heston. Não vi nenhuma das duas e nem li o livro (mas fiquei bastante curioso e interessado em fazer tudo isso). O fato é que a epidemia dos “vampiros” (segundo a concepção de Matheson) destas obras seguramente são uma das fontes para os zumbis de George Romero, os quais, por sua vez, são fonte para todos os outros zumbis, incluindo os mais recentes de “Extermínio” (1 e 2).
O que é interessante na versão de Lawrence é que os detalhes dramáticos não são exagerados e banalizados ao nível de um melodrama barato – o que é comum em filmes-catástrofe. Eu Sou A Lenda mantém-se inteiro dentro de uma tonalidade mais sutil, com muitas coisas sendo deixadas implícitas ou apenas sugeridas. O filme não mastiga todo o alimento antes, colocando-o depois cuidadosamente na boca do espectador e ajudando-o a engolir de todos os modos possíveis. Também está longe de ser uma obra exigente, é claro, mas para o gênero já está muito bom. Os primeiros dez minutos de projeção já mostram todo esse valor. A maneira como são apresentados o protagonista, a sua vida presente (e passada) e o contexto em que tudo isso está inserido, através de elipses e de metonímias muito sábias (uma capa de revista aqui, um cartaz ali, um programa de TV gravado), aliadas a imagens de muito impacto e curiosidade (como a Nova Iorque devastada; curiosidade, no entanto, que não será completamente respondida inteiramente naquele momento, nem mesmo nos momentos subseqüentes – o que quebra a cartilha “literal” do cinemão), tudo isso já vai estimulando o espectador de um jeito especial. Aquilo que tem que ser explicado, o filme o faz usando majoritariamente imagens, as quais são sempre diegéticas (fazendo parte do universo retratado, como objetos no cenário, que é o caso aqui). Esse é o diferencial do cinema (como bem nos ensina o seu maior meste: Alfred Hitchcock) que já deveria ser mais do que banalizado, mas ainda não é.
E o filme todo vai se fazendo à base de elipses bem significativas, embora a maior delas já esteja logo no começo: saltamos da descoberta da cura do câncer para uma Nova Iorque abandonada. É juntando esses detalhes que percebemos que, como um todo, a estrutura narrativa é interessante, porque sabe escolher muito bem o que mostrar e o que esconder, o que revelar e o que manter na sombra da dúvida e da especulação, equilibrando tudo acertadamente numa balança onde o ponto de equilíbrio é o personagem e o seu drama. Afinal de contas, o foco da história não é a catástrofe em si, mas o “day after” e o como que o protagonista lidará com ele. Além disso, como não podia deixar de ser, os efeitos especiais são impressionantes, principalmente ao mostrar uma Manhattan abandonada como se todas as pessoas tivessem simplesmente desaparecido. Em tal ambiente, a solidão perturbadora de um Will Smith amigo de manequins (aqui, o filme lembra o “Náufrago” de Zemeckis), perambulando pelas ruas tomadas de mato que vai crescendo por entre as fissuras do asfalto, por bandos de veados que correm soltos, por leões e quem sabe o que mais lá houver numa situação daquelas – o que nos faz voltar ao ponto de maior interesse do filme: o fato de, mesmo sendo um “blockbuster” do cinema de Hollywood, ele ainda deixa muita coisa para a imaginação do espectador, e o melhor disso está, como já disse, nos primeiros dez minutos de fita (sem que o resto seja necessariamente decepcionante).
Enfim, Eu Sou A Lenda é interessante porque é um “blockbuster” mais sutil (o paradoxo é possível). Nem tudo é explícito, mastigado, empurrado e exagerado para “chocar” e impressionar o espectador, contrariando a tendência – quase pornográfica, à sua própria maneira – dominante nos filmes de ação / aventura / catástrofe / terror / ficção científica / policial da indústria contemporânea. Tendência essa que mostra e explica tudo e tudo às claras, diretamente, principalmente a violência. Já no novo filme de Will Smith, o enquadramento e o foco estão em outro lugar; veja a cena em que o personagem de Smith mata o… Enfim, veja o enquadramento dessa cena e entenderá o que é interessante na visão desse filme. Suspense e drama, eis a chave. Veja também o como que a câmera e a montagem são bastante estáveis ao longo de toda a fita (sem descair para a estética “24 Horas” que domina o cinemão de hoje em dia). Para um diretor que começou fazendo vídeo-clipes de Jennifer Lopez, não é nada mal; Francis Lawrence é um diretor com paciência, o que é uma ótima e rara qualidade em nossos dias. Só pra comparar, pegue-se uma determinada cena de “Duro de Matar 4”, na qual temos um curto diálogo entre dois personagens (parados de pé um diante do outro) que é filmado em uns 20 planos-relâmpago diferentes, na maioria dos quais a câmera rodando e girando e dançando… Quanto a esta “Lenda” aqui, particularmente, eu não via um “blockbuster” contemporâneo que se apegasse mais às técnicas e aos tons de um cinema mais “clássico” desde “A Guerra dos Mundos” de Spielberg. Vale a pena. Quero mais.

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