Mas ainda cabe dizer que o gênero “noir” parece dotado de uma espécie de ingenuidade – algo naïf – que se revela na simplicidade dos conteúdos e dos questionamentos morais (ou amorais, ou imorais) veiculados nessas obras. A complexidade psicológica das personagens é apenas aparente, pois, no final, tudo e todos se reduzem e se encaixam em algum lugar bem determinado. O ingênuo também se encontra nas formas de expressão, na estilística bem única dos filmes “escuros” – daí as constantes paródias. No fundo, parodia-se este gênero da mesma maneira e pelas mesmas razões com que a arte moderna muito parodiou e continua parodiando a arte romântica (basta ler as inúmeras sátiras da nossa famosa “Canção do Exílio”, do grande e puro Gonçalves Dias).
Paródia ou não, o legado de A Dama de Shangai está presente no brasileiro A Dama do Cine Shangai (Guilherme de Almeida Prado, 1988). O ultra-incensado realizador chinês Wong Kar Wai (de 2046 – Os Segredos do Amor, Amores Expressos e Amor à Flor da Pele) está preparando um “remake” do original de Welles para 2009. Parte da ingenuidade romântica desta velha fita vem do próprio diretor-gênio de Cidadão Kane. As assinaturas estilísticas de Orson Welles já constam de todas as cartilhas cinematográficas, mas isso não arranca a beleza, o efeito, a força da impressão que a criação original nos provoca, a cada vez que assistimos e assistimos novamente.
A metáfora da “crazy house” do parque de diversões abandonado, na qual foi escondido e preso o protagonista Michael O’Hara (o próprio Welles), com seus espelhos distorcidos, suas paredes e pisos que mais lembram um cenário de O Gabinete do Dr. Caligari (Welles nunca deixa de prestar tributo ao expressionismo), como simbologia do estado de confusão e atordoamento mental em que se encontra o próprio personagem – enquanto a sua voz em “off” nos explica as causas de tal confusão – pode ser simplista, explícita ou direta demais, mas precisamos dar crédito à beleza e a força significativa das imagens.
Tão simples quanto, mas com ainda mais força imagética é a famosa cena no labirinto dos espelhos (que retoma e potencializa o motif de um plano muito curto de Cidadão Kane. Aqueles espelhos, colocados uns diante dos outros, refletem até o infinito não só as imagens corporais das pessoas ali presentes, mas também os seus dramas e conflitos. Também de maneira “significativa”, os espelhos fazem com que a figura real da pessoa se perca entre as múltiplas imagens de seus reflexos. Tentando-se atirar no sujeito, acerta-se apenas um de seus muitos reflexos. De qualquer maneira, é um daqueles pedaços de filme que é legal se levar para uma sala de aula e discutir, debater, analisar coletivamente.
Orson Welles é um dos maiores diretores de todos os tempos e um dos mais didáticos, tal qual um outro grande mestre e professor da sétima arte: Alfred Hitchcock. Aliás, A Dama de Shangai é mesmo, em vários aspectos, um filme hitchcockiano. Ou será que alguns filmes do “mestre do suspense” não seriam na verdade wellesianos? O fato é que, ao se assistir a qualquer obra desses dois, percebe-se com muita clareza e ímpeto as marcas da autoria. Mas não são marcas quaisquer de autorias quaisquer (há muitos e muito diferentes autores no cinema). Orson Welles e Alfred Hitchcock se parecem mais com autores do Romantismo, os quais se colocam com toda a força do seu espírito (e também com a força da sua presença corporal) dentro de e em cada plano de seus filmes.
Se há casos em que eu (quase) consiga identificar o diretor de um filme (ao qual eu nunca assisti) apenas por ver uns trinta segundos de fita (Maestro, qual é a música?), esses casos são os do “enfant” e do “monsieur” terribles da sétima arte. A força e a ingenuidade do espírito romântico, que é ingênuo não por acreditar em valores “ingênuos” como a paz, o amor, a bondade; mas por acreditar acima de tudo em si mesmo e em suas idéias – quaisquer que sejam elas (e elas podem variar bastante, e serem bem pouco “ingênuas”). Mas ainda há um outro grande mérito para A Dama de Shangai: que é a própria “dama” em questão: Rita Hayworth. Não há Nicole Kidman ou Rachel Weisz (segundo os boatos em relação à refilmagem de Kar Wai) que se lhe compare. Mas veremos.

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