Como produto de mercado, as características da cultura e da estética indie se transformam em fórmulas e cacoetes. Estas fórmulas e cacoetes são trabalhados meticulosamente não como expressão artística, mas como estratégia de marketing que visa a melhor aceitação do produto. Muitas vezes, jornalistas, críticos e o próprio público-alvo são “trabalhados” previamente para que se crie neles – e eles criem em outros – uma expectativa, até mesmo uma ansiedade pelo produto prestes a ser lançado; esta ansiedade poderá contribuir muito positivamente para a recepção do produto. É o que chamamos de hype.
Agora, por que estou eu falando dessas coisas? Para acusar Juno de um bem sucedido golpe publicitário? Não. Meu desejo, do fundo do coração, é questionar a natureza e a razão deste filme. A dúvida cruel que me aflige é: seria Juno indie, mesmo se não existisse o mercado indie? Ou será que Juno não passa de um “hype” muito bem tramado? A nova obra de Jason Reitman é autêntica ou não? Melhor ainda: em que medida ela é autêntica? Pois há tantos elementos no filme que nos fazem acreditar que ela o seja, quanto há os que nos fazem duvidar e torcer o nariz.
O caso de Juno me lembra bastante o da banda de rock The White Stripes. Todos os elementos do grupo de Meg e Jack White – e não só os musicais, mas também a “atitude”, o figurino, o visual dos shows, dos videoclipes e das capas dos discos – contribuem e confluem para a criação de uma identidade visual única e bem marcante, quase como se fosse… uma marca! Um produto bem chamativo à venda nos supermercados da cultura… É claro que tudo o que eu digo são apenas especulações, difíceis de serem conferidas e comprovadas. Mas a dúvida surge e fica.
Talvez a coisa seja e não seja ao mesmo tempo, e propositalmente. Graças a um manejo muito engenhoso de uma profunda e rica ambigüidade (dialética até), coisas como os White Stripes e Juno seriam obras autenticamente artísticas que se disfarçam de produtos de mercado para comentar e criticar esses mesmos produtos – ou simplesmente para carregarem mais livremente a suas próprias idéias originais –, aproveitando-se do processo mercadológico para se difundirem melhor a si mesmas. É uma campanha de marketing, um golpe publicitário, mas também é mais do que isso; e por uma causa nobre. Eis a Pop Art.
De qualquer maneira, como alguns discos ou bandas de rock, Juno é um filme conceitual. Todos os seus elementos (todos mesmo), desde o design dos créditos e da abertura, passando pela fotografia (com uma composição quase musical entre os elementos do quadro, incluindo o rico trabalho com cores vivas), pela montagem (com um ritmo também musical, lembrando um videoclipe do REM ou do Belle and Sebastian) e pela trilha sonora (recheada de indie rock, é claro), chegando na atuação repleta de “atitude” e de mil e um trejeitos da protagonista (vivida pela promissora Ellen Page) e de outros personagens (todos carismáticos e deliciosamente disfuncionais), tudo neste filme ajuda na criação de uma identidade perfeitamente coesa, coerente e sobretudo simpática.
Identidade que é destacada do começo ao fim da projeção como se fosse um caso de auto-afirmação. Ou seja, como se o filme fosse em si tão adolescente quanto os personagens que o animam. Esta é uma coerência que o recente Paranoid Park de Van Sant não tem (coisa que eu critiquei quando escrevi sobre ele). Apesar das óbvias diferenças na história e nos personagens, o discurso audiovisual de Jason Reitman neste filme está mais “colado” ao seu assunto do que o de Gus Van Sant em relação ao dele. Isto faz com que Juno seja mais simpático e agradável de se ver do que Paranoid Park. Mas não quer dizer que seja um filme “melhor”.
De qualquer modo, Juno é como um disco do Belle and Sebastian (banda escocesa paradigma do indie rock), que aliás faz parte da trilha sonora, inclusive no que toca à sensibilidade. O roteiro, escrito pela ex-stripper Diablo Cody (que ganhou um Oscar por ele), daria perfeitamente uma letra para alguma canção da banda de Stuart Murdoch. Juno é poser como os típicos freqüentadores das baladas indie daqui de São Paulo, o que pode ser bom ou mal, dependendo do gosto e da opinião que o espectador tenha em relação a posers, e a posers indie, especificamente. Na medida em que for um produto da pequena grande indústria do “alternativo”, as fórmulas e cacoetes de Juno podem agradar àqueles que os apreciam, mas é importante lembrar que não passariam de fórmulas e cacoetes, da mesma família (embora não do mesmo gênero) que as fórmulas e cacoetes dos filmes de Michael Bay, por exemplo.
A história de Juno gira em torno das quatro estações de um ano, que nos países de clima temperado possuem características bem próprias e trazem cores bem diferentes para a paisagem. Estas quatro estações mudarão consideravelmente as cores da vida e da pessoa de Juno McGuff (Ellen Page), uma adolescente que engravida acidentalmente durante o outono. Até as portas do verão seguinte (quando nascerá o bebê), Juno passará por grandes transformações e mudará as pessoas ao seu redor – justamente como a natureza atingida pelos efeitos das estações. Após cogitar muito brevemente o aborto, ela decidirá desde cedo dar o bebê para a adoção.
Para tanto, ela escolhe um casal muito gente fina, bem-sucedido, cujo maior desejo é ter filhos, mas que até então não os conseguiu: Mark (Jason Bateman, o Michael Bluth da série “Arrested Development”) e Vanessa Loring (Jeniffer Garner). O processo de adoção não ocorrerá sem os seus percalços, mas, no final, o caráter sazonal associado à narrativa provará ser bem significativo. A vida é um ciclo. Eis a sua beleza e sentido. O interessante também é que Juno é um filme de personagem, como o próprio título o atesta. A personagem de Ellen Page é quase como uma Capitu: menina-mulher forte, decidida, com uma inteligência maliciosa e sarcástica, manifesta em atitudes sempre indubitavelmente pragmáticas.
Em vários aspectos, Juno é mais madura do que os adultos que a rodeiam: o pai, a mãe ausente, a madrasta, os Loring. Tanto que ela dá lições claras de maturidade e todos eles. Contudo, uma maturidade tamanha só poderia estar ligada a uma ingenuidade também muito grande. Quero dizer, somente com uma certa dose de ingenuidade, inexperiência ou ignorância que podemos tomar certas atitudes com tanta segurança e rapidez. Desta forma, a pureza de Juno faz com que ela seja mais adulta do que os adultos que, perdendo tal pureza, passam a cometer erros “infantis”.
Mark Loring é o típico “kidult” norte-americano: entre os seus “late thirdies” e “early fourthies”, mas que ainda não viveu, processou e superou muitas experiências e mentalidades adolescentes. Não é à toa que vai rolar uma forte identificação entre ele e Juno. E o fato de Mark ser fanático pelo rock dos anos 90, enquanto Juno defende os clássicos da década de 70, também é bastante bizarro e significativo. Aliás, quase chorei ao ver no filme o raro álbum “If I were a Carpenter”, tributo aos Carpenters feito nos anos 90 por bandas do rock alternativo. É um dos discos que fizeram a minha adolescência! Pena que pouca gente conhece (não é o caso de Jason Reitman)…
É importante lembrar também que Juno (Hera, na versão grega), esposa de Júpiter (Zeus, entre os gregos), é a “femme-fatale” da mitologia greco-romana. Esta referência é explicada pela própria personagem de Page. Mas a jovem Juno é maquiavélica e altruísta ao mesmo tempo: a solução que ela encontra para a “desgraça” da sua gravidez será a “graça divina” para outras e necessitadas pessoas. Isto é que é estar dentro do melhor espírito do “fazer das tripas coração”. E ela acredita na humanidade (mas não sem abalos de fé) e no amor. Personagem forte e polêmica, contraditória mas sempre vencedora, Juno lembra muito o protagonista de Obrigado Por Fumar (2006), filme anterior e estréia na direção de Jason Reitman. Interpretado intensamente por Aaron Eckhart, Nick Naylor e Juno são pessoas intensas e carismáticas, anti-heróis que realizam às avessas o sonho americano. Vamos ver o que vem em seguida.
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