Entretanto, os filmes de Burton são tão bem equilibrados em seus propósitos e na sua estética, que talvez nem convenha falar em sobreposição de “camadas”. É tudo simultâneo, tudo interligado em primeiro plano. É claro que, dependendo de com que olhos se assiste às fitas, alguns aspectos saltarão mais do que outros; mas os olhares bem balanceados perceberão a incrível polivalência dos filmes do diretor de Batman, O Retorno (1992), e como ela é trabalhada por todos os lados sem deixar nada para trás. E não devemos nos esquecer jamais de que a primeira grande e eficaz aproximação entre o cinematógrafo e a arte do espetáculo pertence ao prestidigitador (ilusionista) Méliès. O francês foi o primeiro a entender plenamente o potencial mítico do Cinema, como veículo dos sonhos, das fantasias, das alegrias, esperanças, dores e sofrimentos humanos. Tudo isto e muito mais é mostrado com todo o poder da clareza e da realidade trazidas pelo cinematógrafo – e transformadas com todo o engenho do mágico cineasta. E tudo isto é exatamente o que reencontramos na obra de Tim Burton.
Ele se aproveita de toda a (hoje avançadíssima) máquina da indústria cinematográfica e de todos os elementos mais tradicionais da Sétima Arte (sem deixar nenhum de lado, o que está dentro da qualidade polivalente de que falei no parágrafo anterior) na construção engenhosa do seu espetáculo epifânico. Engenho e epifania: duas palavras que remetem a campos completamente opostos (o humano e o divino), mas que se encontram perfeitamente unificadas no cinema de realizadores que assumem para si mesmos a tarefa de Prometeu. Eis o mito que literalmente anima o cinema, de Méliès a Burton. Em Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (“Sweeney Todd – The Demon Barber of Fleet Street”, EUA / Inglaterra, 2007), todos os aspectos do audiovisual são pensados e trabalhados com incrível esmero: a direção de arte (que ganhou um Oscar), os figurinos, os atores (com destaque para Johnny Depp, Helena Bonhan-Carter, Alan Rickman e Sacha Baron Cohen), a fotografia, a montagem, a trilha sonora e os efeitos especiais computadorizados (na abertura e numa estonteante e impossível panorâmica).
O espetáculo é o de um delicioso conto de fadas gótico (lembremos que Tim Burton é, atualmente, o maior herdeiro da Arte Romântica no Cinema): a história de Benjamin Barker (Johnny Depp), um pacato barbeiro londrino que é preso, julgado e sentenciado injustamente ao exílio por um juiz sem escrúpulos (Alan Rickman) que está interessado em sua mulher. Quinze anos depois, ele retorna para se vingar, disfarçado sob a alcunha de Sweeney Todd, também barbeiro. Até conseguir pegar o juiz, Todd “treinará” a sua vingança em (quase – este detalhe é importante, veja o filme com atenção, pois não vou fazer “spoiler” aqui) todas as pessoas que sentarem em sua cadeira de barbearia, com a cumplicidade da miserável Mrs. Lovett (Helena Bonham Carter), que usará a carne dos mortos para rechear as tortas que ela vende em seu “bistrô”. E toma-se gargantas cortadas à navalha (motivo que ecoa bastante também em Os Senhores do Crime, de David Cronenberg), em banhos e esguichos de sangue literalmente espetaculares. Pois todo este sangue está mais para um motivo literário-plástico do que para a coisa de fato. É impossível não lembrar aqui a famosíssima frase de Godard: “Não é sangue, é vermelho!”
De fato, é vermelho. E muito vermelho. A cor, a textura e a densidade do sangue em Sweeney Todd são propositalmente inverossímeis. Assim, o filme não é violento. É uma fábula, um “causo” que se conta. Violentos são os filmes de Quentin Tarantino, mal-disfarçados de fantasia. Este filme de Tim Burton é teatro, e teatro do mais puro: o roteiro é a adaptação de um musical da Broadway, com partitura assinada por Stephen Sondheim; a história original do barbeiro demoníaco é uma lenda urbana (com várias versões) da Inglaterra do século XIX, que pode ou não ter alguma base real (Sweeney Todd é um dos primeiros “serial killers” a aparecerem na cultura moderna). O vermelho vivo do sangue que domina este filme é o único elemento “real” que contrasta com o cinza, com o escuro sombrio e nevoento da Londres “Gotham City” de Burton. No reino do imaginário, temos as cores claras e os ambientes ensolarados do passado feliz de Benjamin Barker e dos sonhos esperançosos de Mrs. Lovett. Mas o bem final aqui jamais se concretizará; a maldição é irreversível e irremediável, ao contrário do que se vê em A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (“Sleepy Hollow”, 1999).
Agora, o que há de ser mais maravilhoso (literalmente) neste filme é o fato de ser um musical (!). Não por ser um musical que se oponha aos musicais tradicionais do cinema (já há diversos filmes que fazem isso, que destroem ou desconstroem o gênero, basta lembrar Dançando no Escuro, do famigerado Lars Von Trier); mas por ser um musical diferente, sem deixar de ser musical, de ter a alma musical e de concordar com tudo o que há a respeito de musical até o fundo… Um musical negativo (mas não negador), mas mesmo assim um musical; um musical gótico, ou “punk rock”, como o definiu Johnny Depp. De qualquer forma, está nos antípodas da felicidade, da luz e da deliciosa simplicidade do cinema musical clássico norte-americano (Gene Kelly, Fred Astaire). É muito interessante opor as cores vivas e chapadas do technicolor daqueles filmes aos tons praticamente expressionistas de Sweeney Todd (aliás, a direção de arte neste filme é quase tão delirante quanto O Gabinete do Dr. Caligari); ou ligar aquelas cores ao vermelho-tinta que é a única cor de verdade aqui. Mas o toque final da sutileza de Burton é o fato de ser um filme quase que inteiramente cantado (neste caso, ele estaria mais para uma espécie de Os Guarda-Chuvas do Amor gótico, em referência à clássica película de Jacques Demy), no qual – não obstante, o que mais se vê em segundo lugar são gargantas sendo cortadas e suas vítimas sufocando com aqueles ruídos agonizantes (principalmente para o espectador).
Epiphany
I had him!
They all deserve to die.
No, we all deserve to die
And I’ll never see Johanna
I will have vengenance.
Not one man, no, nor ten men.
But the work waits!

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