A Terceira Rosa entre os Dentes
por Jean-Michel Frodon
Ele está de volta. É difícil estabelecer comparações para o retorno de Francis Ford Coppola à tela grande dez anos depois de O Homem Que Fazia Chover. Pois Coppola encarna, como ninguém, as conquistas, as esperanças, as contradições e as utopias do Cinema. Deveria eu acrescentar “do cinema americano desde os anos setenta até os anos 90”? Isto seria tão verdadeiro quanto reducionista. Lembremo-nos de uma história que, de tão conhecida, acaba sendo constantemente esquecida:
1) Um tremendo artista do filme no sentido da inventividade estética, como visto na jamais rivalizada aventura de Apocalipse Now; a trilogia O Poderoso Chefão, com os episódios 2 e 3 construídos sobre e contra a obra prévia; a extraordinária variedade de invenção formal que atinge as raízes das coisas em A Conversação, Jardins de Pedra, O Selvagem da Motocicleta, Tucker – Um Homem e seu Sonho e o injustamente depreciado e surpreendente Jack.
2) Um visionário em seu próprio tempo, um tempo que ele não tem descrito muito, mas o tem questionado com grande profundidade através dos métodos da ficção e do espetáculo cinematográfico.
3) O autor de uma pessoal e coerente meditação, que corre por todo o seu trabalho, sobre seres humanos colocados no tempo.
4) O audacioso estrategista de uma hipotética indústria alternativa ao modelo de Hollywood, cujo fracasso revela mais sobre a coragem e a energia despendidas do que sobre a impossibilidade do projeto.
5) Um pioneiro de inovações tecnológicas concebidas tanto num plano estético quanto econômico, com grandes marcos como as apostas de One From The Heart e Megalopolis, o projeto que permaneceu escorregando além do horizonte. A equação Coppola: 1+2+3+4+5=cinema.
Ainda que a equação dificilmente resuma uma vida ou o conjunto de uma obra, ela oferece algumas referências para esboçar a silhueta de um homem e de uma idéia em transformação, com mais do que a sua parcela de drama e de fracasso. Ainda que Coppola se apresente a si mesmo como um ícone jocoso, um fabricante de bons vinhos, um latino homem de família e um jovial contador de histórias, a dimensão trágica continua a persegui-lo. Enquanto ele se prepara para revelar ao mundo o seu vigésimo primeiro filme, o golpe que sofreu recentemente – um roubo brutal e a perda de grande parte dos seus arquivos – parece bem mais do que uma notícia banal. Qualquer um que tenha visto um filme sequer de Coppola pode adivinhar o que a perda de fotos de família representa para um homem que tem construído um tão ansioso e apaixonado lugar para os laços de sangue e devotado tamanha importância para a noção de deixar um legado e um registro. Este trauma, durante o qual sangue foi derramado, mais uma vez ameaçou o futuro – o roteiro do próximo filme foi roubado – justamente quando este parecia estar em vias de reconstrução. Por outro lado, o evento parece trazer um alívio, ainda que brutal, em relação ao peso do passado num momento em que justamente se deve seguir adiante.
Do início ao fim, Youth Without Youth é assombrado por essas mesmas tensões e contradições, esses paradoxos e essa violência, descendo aos mais profundos abismos, subindo às mais vertiginosas alturas e assumindo a mais selvagem narrativa. Por mais criativo que já fosse o conto de Mircea Eliade no qual ele se baseou, Coppola não se conteve em lhe adicionar largas doses de fantasia narrativa. O diretor foi até a Europa Central, o pólo oposto de Hollywood – mas seu celeiro criativo original, em busca da possibilidade de reinventar a si mesmo, aquele que conhece tudo e realizou tudo, voltando ao nível de um iniciante. Nessa singular atitude, encontramos o orgulho de Fausto, com o desconto da modéstia e da agilidade tática. Esse gesto, o qual – como sempre ocorre com Coppola – é tanto o gesto do artista quanto o gesto do produtor, transforma Youth Without Youth em uma demanda cavaleiresca por uma utopia a qual o cinema não pode exatamente dispensar, não importa o quão envelhecido fique, coisa que Godard chama de “a infância da arte”. Por favor, abram caminho para o cavalo de Dom Quixote, aquele que passa não é um velho louco, mas a figura da quimera humana em um terreno bem sólido.
O que é que Dom Coppola procura? Cinéfilos e especialistas em religião conhecem a parábola das três rosas, que circula pela mitologia, e é um dos temas centrais de Youth Without Youth e da história de Eliade. A flor redundante que permanece como um traço tangível e colorido de um outro mundo invisível, a flor dada pelos anjos ao sonhador que viaja através do céu e do inferno do conhecimento, do terror e do amor, aquela flor que nós chamamos de filme quando é Francis Ford Coppola quem a cultiva e colhe, testemunha em dois mundos, por dois mundos, ao mesmo tempo: o velho e o novo, realidade e o imaginário.
Levantem as luzes!

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