Tudo isso faz a delícia do cinéfilo em Um Beijo Roubado (“My Blueberry Nights”, 2007), primeiro longa “ocidental” do diretor. Um parêntese: mais uma vez, os tradutores de títulos brasileiros nos fizeram o (des)favor de estragar o filme. “Minhas Noites de Torta de Blueberry” poderia não ficar legal, mas qualquer coisa seria melhor do que a alcunha que ficou. Assista o filme e veja a cagada – não vou fazer “spoiler”. Só não é pior do que o título lusitano para Vertigo, de Hitchcock: “A Mulher que Viveu Duas Vezes”… Enfim, do pouco que conheço de Kar-Wai, talvez possa dizer que é um esteta acima de tudo: cinco segundos de exibição já basta para reconhecermos que se trata de uma obra sua, assim como três acordes de uma guitarra já nos fazem dizer que é uma música de, por exemplo, Eric Clapton.
Agora, essas marcas não são, necessariamente, sinais de um artista genial, sequer criativo. Primeiro: no meio de todo o tecido que compõe as influências formais de um determinado autor, deve sobressair (minimamente que seja) algo de si próprio. Segundo: todo o virtuosismo do mundo não compensará a falta de conteúdo, e um conteúdo de preferência (também minimamente) original. Muito bem. Como é que Kar-Wai se enquadra nisso tudo? Suas cores lembram as de Almodóvar, seu ritmo lembra a “paixão de filmar” da Nouvelle Vague, suas histórias de encontros e desencontros amorosos lembram tanta coisa que é até melhor deixar pra lá. Eu realmente precisaria ver mais filmes dele para saber com certeza o quanto de si sobressai no meio dessas coisas todas, mas há algo que já posso dizer agora: ainda que Wong Kar-Wai não vislumbre ou abra caminhos para o Cinema, o que ele faz segue muito bem – com o melhor dos talentos maneiristas – a tradição que o diretor escolheu.
Um Beijo Roubado é uma fita gostosa de ver, com uma história bonita, com personagens cativantes. E para por aí. Não é um filme que vá transformar a vida do espectador, ou revelar-lhe novos planos de “realidade”. Mas é uma ótima arte “do cotidiano”, digamos assim: mostra-nos coisas que, de tão óbvias e banais, acabam passando despercebidas; reeduca o nosso olhar para a vida presente, o mundo presente, o momento presente, a pessoa presente. É a singeleza da poesia moderna, da crônica. Sim. Um Beijo Roubado é uma crônica bem poética, eis a definição. Em termos audiovisuais, é um vídeo-clipe dos afetos. É um filme para se ver no cinema à noite e, depois, circular pela vida noturna da cidade, vivendo e testemunhando as pequenas aventuras e desventuras que fazem a graça da nossa espécie. Eis a inspiração. Eis o que eu fiz.

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