Jumper

Jumper (EUA, 2008, dir.: Doug Liman) é um filme despretensioso. Mesmo assim, suas premissas fazem o amante da Sétima Arte sonhar com um outro filme. Toda uma escola da realização e da teoria do Cinema defende a montagem como sendo o “específico cinematográfico”. Se pensarmos um pouco mais a fundo nas técnicas de edição, concluiremos que os seus atributos são os do teletransporte, que é exatamente o poder do protagonista de “Pulador”. A montagem serve para eliminar os tempos mortos da narrativa – não é à toa que ela está na base tanto do cinema de Hollywood quanto na escola soviética dos anos 20 (embora pensada e realizada de maneiras diferentes).

Em Jumper, tal montagem chega ao paroxismo, a ponto de a crítica reclamar – inutilmente – da superficialidade do enredo e das personagens; é óbvio que neste filme tudo é superficial, seu protagonista não tem a paciência para caminhar (literalmente ou não) de um lugar para outro, a própria montagem e o roteiro confirmam e expressam coerentemente essa idéia. Eis a proposta da fita. O personagem de Hayden Christensen (David Rice) é aquele típico “kidult” hiper-ativo e preguiçoso ao mesmo tempo, pragmático ao extremo, sem a proverbial paciência para apreciar e aprender com a beleza do caminho, independentemente do ponto de chegada.

Mas não são esses mesmos os valores da sociedade de consumo do mundo “globalizado”? New York, Londres, Egito, Roma, tanto faz, é tudo igual mesmo, observa-se o pouco de cada lugar e vai-se embora para o próximo. É a futilidade blasé dos “playboys” do nosso tempo. A crítica também reclamou do visual excessivamente “cartão postal” de cada lugar, mas não é essa a proposta do filme, a visão de mundo por ele representada? (se representada conscientemente ou não, isso pouco importa aqui). David não faz nada além do que a sociedade contemporânea espera dele, inclusive deleitar-se infantilmente e corromper-se com o poder que tem em mãos.

Assim é David Rice. Assim é o filme que o representa. Assim é o espectador desse filme (ou de filmes “assim”). A ultra-velocidade tão elogiada da vida contemporânea é a marca de Jumper. Agora, o filme não ironiza, não destrói “por dentro” esses códigos – eis a primeira razão pela qual o cinéfilo poderia sonhar com outro filme; quem sabe se ele tivesse sido realizado pelo diretor de Scanners (1981)… A segunda razão está em que, mesmo “concordando” com essa forma de cinema e de mundo, o diretor Doug Liman poderia ter usado mais criativamente a montagem para expressar tais idéias, meditando mais sobre a montagem enquanto “teleporte” cinematográfico e buscando maneiras mais experimentais, digamos assim, para associar poeticamente as escolhas do personagem com as escolhas do próprio filme.

Para isso, mesmo com todo o ritmo dinâmico da película (88 minutos de duração só), teria sido bem (mais) interessante se o diretor procurasse, de alguma maneira, realizar em Jumper o conceito da geografia criativa de Lev Kulechov – mestre soviético da montagem como construtora de significados. Ele propõe que se junte o plano de um homem que caminha em Manhattan – tendo a Estátua da Liberdade ao fundo – com o de uma mulher caminhando em Paris ao encontro desse homem – tendo a Torre Eiffel ao fundo. Então, num terceiro plano, ambos se encontram, só que em Roma – o Coliseu ao fundo. Ismail Xavier afirma que a geografia criativa “corresponde justamente ao processo pelo qual a montagem confere um efeito de contigüidade espacial a imagens obtidas em espaços completamente distantes, e de aparência de realidade a um todo irreal” (O Discurso Cinematográfico – a Opacidade e a Transparência).

Bem, essa é uma bola que Doug Liman chuta na trave. O insólito de algumas imagens até que é bem interessante: o “jumper” sentado numa cadeira de praia no topo da cabeça da esfinge no Egito, o tradicional ônibus de dois andares londrino indo parar no meio do deserto do Saara. Mas comete um grave pecado cinematográfico: dizer com palavras o que poderia ser dito com imagens: eis a descrição que David faz, logo no começo, de uma típica manhã sua. Enfim, entre Heroes, X-Men e A Identidade Bourne (do próprio Liman) teleporta-se esse Jumper, com a agilidade própria do personagem, mas provocando, assim como ele, estragos por onde passa.

Uma resposta para “Jumper”.

  1. Putz… assisti essa “peça” ontem… achei “engraçadinho mas ordinário” kkkkkkQueria taaaanto ser ele… acho q é a única coisa q o filme acerta… cutucar esse desejo da gente por andar pelo mundo todo e fazer o q quiser.. :)Sobre a poesia, acho q sou apenas eu e não aquele monte de gente… rsrs

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