As celebridades realizam nossos desejos mais sujos, em seu trabalho “sujo”. Olhamos para as celebridades com fascinação e arrogância, ao mesmo tempo. Uma vez que são, para nós, caracteres meramente funcionais, passa ao largo da nossa visão e do nosso entendimento o seu aspecto verdadeiramente humano. As celebridades não são sujeitos; são “personalidades”, ou personas – na acepção de Jung –, cascas vazias de alma individual, representando apenas “tipos” dotados papéis sociais bastante definidos. E – o mais importante – não há qualquer mobilidade entre os papéis, tampouco possibilidade de não se exercer um “papel”. Cegos por tais atributos, os sujeitos-astros da sociedade do espetáculo não vêem ou vivem a própria subjetividade, mas apenas suas personas. Os diferentes efeitos dos estragos psicológicos que isso causa alimentam incansavelmente as colunas sociais da mídia.
Tudo o que foi dito no parágrafo acima aplica-se de modo exemplar à figura fictícia de Tony Stark, e de modo ainda mais exemplar à figura “real” de Robert Downey Jr., persona de si mesmo e do personagem que vestirá a armadura do Homem de Ferro. O sentido original do vocábulo persona diz respeito ao teatro grego antigo: “Persona era o nome da máscara que os atores do teatro grego usavam. Sua função era tanto dar ao ator a aparência que o papel exigia, quanto amplificar sua voz, permitindo que fosse bem ouvida pelos espectadores. A palavra é derivada do verbo personare, ou ‘soar através de’.” (Wikipédia) Na sociedade, todos usamos máscaras também, no delicado jogo da convivência. Daí o sentido psicológico da persona: “na Psicologia Analítica (Jung), é dado o nome de persona à função psíquica relacional voltada ao mundo externo, na busca de adaptação social.” (Wikipédia)
Ninguém há de negar que o que Tony Stark mais busca é justamente a “adaptação social”. A máscara do Homem de Ferro será a forma mais acabada dessa busca, após tentativas, erros e arrependimentos. O Homem de Ferro conclui o longo e sofrido processo de amadurecimento do indivíduo, que finalmente descobrirá uma verdade e a vestirá como uma rígida e férrea armadura, assim como uma arma, contra as forças do meio que constantemente atentam contra a delicada integridade carnal e psíquica do sujeito. Sejamos gratos que Stark tenha descoberto tal verdade antes de sucumbir completamente às forças da coletividade que esmagam o eu dentro da persona que essas mesmas forças lhe impõem. E gratos também a Downey Jr., que se reergueu e agora dá a volta por cima, como artista e como pessoa.
Como Vulcano, a deformidade de Tony Stark é física, mas com fortes implicações metafóricas – e sem qualquer relação com “feiúra”, excetuando-se talvez a feiúra moral. Se o deus clássico é coxo, Stark é “coxo” do coração. Seu coração, após a queda do “Olimpo” passa a requerer um complicado dispositivo tecnológico para continuar funcionando. Assim como Vulcano torna-se coxo após cair das alturas olímpicas, arremessado por seu próprio pai, Júpiter. No entanto, esse isolamento do mundo, essa simulação de morte provocará um renascimento espiritual em Stark. É a jornada do herói (nos estudos míticos de Joseph Campbell), a traumática passagem da perdição à salvação, da descoberta interior, que anima as mais diversas mitologias, os sonhos e também a psicologia analítica. Tal descoberta será auxiliada pela figura arquetípica do velho sábio, representada pelo cientista aprisionado junto com Stark na montanha-inferno dantesco.
A Stark pode ser referida a primeira estrofe da Divina Comédia:
“Nel mezzo del camin di nostra vita
Mi ritrovai per una selva oscura,
Che la diritta via era smarrita.”
(No meio do caminho de nossa vida
Encontrei-me em uma selva escura,
Pois a direita via estava perdida.”
Silogismo básico: 1. Se Robert Downey Jr. é Tony Stark, e: 2. Tony Stark é o Homem de Ferro, logo: 3. Robert Downey Jr. é o Homem de Ferro.
Mas a dimensão vulcânica continua: ao voltar para o mundo, Stark se fechará no seu palácio-oficina de Vulcano e, com a ajuda dos seus ciclopes robóticos, desenvolverá com labor e indústria a maior de todas as armas, para o bem. Utilizando-se dos mesmos talentos e instrumentos que antes serviam ao mal, Stark agora se tornará um herói. É a hora e vez de Tony Stark, assim como temos – na gloriosa literatura de Guimarães Rosa – a Hora e Vez de Augusto Matraga. Os mitos são universais. O grande rival de Vulcano (forjador das armas) é Marte (Ares, o deus da guerra). Assim, apesar de Stark ser o criador das armas usadas na guerra, ele lutará contra o conflito e contra a destruição. A origem anglo-saxônica do nome Stark aponta para o significado de forte, firme, confirmado até o último grau. O nome já indica o caráter. O caráter promove a ação. O resto é Heavy Metal.

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