“Um dia desses vi sobre a mesa uma talhada de melancia. E, assim sobre a mesa nua, parecia o riso de um louco (não sei explicar melhor). Não fosse a resignação a um mundo que me obriga a ser sensata, como eu gritaria de susto às alegres monstruosidades pré-históricas da terra. Só um infante não se espanta: também ele é uma alegre monstruosidade que se repete desde o começo da história do homem. Só depois é que vêm o medo, o apaziguamento do medo, a negação do medo – a civilização enfim. Enquanto isso, sobre a mesa nua, a talhada gritante de melancia vermelha. Sou grata a meus olhos que ainda se espantem tanto. Ainda verei muitas coisas. Para falar verdade, mesmo sem melancia, uma mesa nua também é algo para se ver.” Clarice Lispector, Um Sopro de Vida
É a experiência sensível em contato direto com o mundo concreto, aquém ou além de qualquer racionalização ou abstração conceitual. É simplesmente a melancia e tudo o que ela desperta de mais profundo em nós, o que também faz parte da melancia. Os efeitos subjetivos que ela exerce em nós são também seus atributos objetivos. É todo o peso do objeto vivido, mergulhados que estamos no útero da realidade. A grande arte não busca comunicar coisa alguma. A grande arte, grande Literatura e grande Cinema, busca apenas expressar… Expressar essas coisas, assim.
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