O western spaghetti de Sérgio Leone é um grande Maneirismo em relação ao “western” clássico norte-americano. Vão aí as qualidades de uma tal estética – a delícia que ela oferece aos nossos sentidos – e também os seus defeitos: a mão pesada na execução, o excesso de seriedade que beira o burlesco – ou o excesso de burlesco que parecerá seriedade às inteligências menos maliciosas. De qualquer maneira, a obra de Leone ainda merece os louros do Clássico, por seu equilíbrio estético e coerência artística. Nela sentimos a paixão de um estudo apaixonado, aprofundado e disciplinado da História. Da História de uma cultura, de um gênero artístico, de um princípio estético. E da História em si, de um passado repleto de significado, ainda que mitificado – o que não é problema algum, per si, sendo neste caso até uma vantagem.
Agora, tudo isso não pode ser dito, absolutamente, dos “maneiristas” contemporâneos, grifes como Quentin Tarantino, Robert Rodriguez ou Zack Snyder. Desses, e de outros, o menos ruim é M. Night Shyamalan. Mesmo assim, imensas proporções devem ser guardadas quando se pretende referenciá-lo a diretores e gêneros do passado. A perspectiva histórica deve sempre ser mantida quando se analisam e julgam criticamente os novos “talentos”. Pena que tal bagagem parece faltar a alguns críticos. Em alguns casos, falta até mesmo aos próprios “jovens talentos”. Enfim, nem tudo o que é do passado é “antigo”, e nem tudo o que é “antigo” é “velho”. Por Uns Dólares a Mais (1965) ainda mantém (e talvez sempre mantenha) um apelo jovem com força incrível. É um filme muito mais “descolado” do que qualquer embuste marketeiro pseudo-cult que nos assola atualmente.
Um cinema como o de Sérgio Leone é praticado como se fosse um rito, uma autêntica liturgia. É um cinema que encarna o Mito. Celebrando o mito, ele faz com que nós o vivamos a todo momento e jamais o esqueçamos. Quem haverá de se esquecer do tour de force entre Clint Eastwood e Lee Van Cleef, principalmente na cena “do chapéu”? Quem conseguirá esquecer o bando de bandoleiros chefiado por El Índio, instalado em uma igreja abandonada, na qual eles exercem sua “justiça” nada divina? A trilha sonora de Enio Morricone? O poncho de Eastwood? A aridez da paisagem, das personagens, do seu discurso, sua postura blasé? Sem contar os grandes temas da ganância, da vingança, do remorso, do amor, da solidão…

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