“Atonement” é um filme todo rococó. É de uma estética impecável – o que, neste caso, está longe de ser uma qualidade. É feito para impressionar espectadores sensíveis e com senso estético não mais do que elementar. Em todo caso, o filme é cansativo. Torna-se irritante a sua maravilhosa iluminação, com a luz natural estourada por todos os lados, com um aspecto de ofuscado e de sffumato para dar um clima de sonho, de memória, de passado, de um filme culto e chique. A trilha sonora pontuando as cenas e as emoções sem mão pesada, mas com um dinamismo artificial, muito discursivo, parecendo um comercial de TV. Os riquíssimos e mínimos detalhes dos figurinos, dos cenários – tanto os construídos quanto os naturais: a ambientação é realmente impressionante (!).
Mas não há nada, nisso tudo, que pareça ter nascido e sido elaborado pelo espírito natural e espontâneo de um artista (ou de uma equipe de artistas). Parece um filme feito à risca em cima de uma certa cartilha, em cima do manual do “filme-de-arte-mas-com-apelo-comercial-para-públicos-um-pouco-mais-refinados”. É toda uma sofisticação de boutique, de fachada, com pretensa profundidade, como a arquitetura “neoclássica” que infesta edifícios residenciais de luxo aqui em São Paulo. Não convence. O mais irritante neste filme é a “virtuosa” cena – conscienciosamente elaborada – dos soldados britânicos numa praia francesa à espera de resgate. É o plágio descarado de uma – essa sim – impressionante cena de Apocalipse Now (que eu discuti neste blog no dia 3 de abril deste ano).
Quer dizer, isso apenas nos mostra o quanto a arte se empobrece quando perde a autenticidade. Autenticidade não quer dizer, necessariamente, criatividade e originalidade. Algo autêntico é algo feito de coração, e não com um cérebro que simula um coração. A mera cópia de fórmulas ou padrões estéticos, ou ainda padrões temáticos, ainda que sejam padrões de grande prestígio e legitimidade artística e intelectual, não produzirá nada de realmente substancial, caso não venha acompanhada de uma presença de espírito. Não parece que o diretor, o roteirista, o produtor e outros envolvidos acreditam neste filme, tenham fé nele. O filme causa a impressão de ser feito a toque não mais do que profissional. É um filme marketeiro.
A história, os personagens e os temas discutidos são até que bem interessantes; mas, se for só por eles, é preferível ler o livro (o filme baseia-se num romance). Torcendo, é claro, para que o livro trate esses conteúdos dentro de escolhas literárias interessantes e pertinentes; caso contrário, cair-se-á na desgraça total (tanto literária quanto cinematográfica) que foi O Caçador de Pipas. “Atonement” é um filme tão interesseiro quanto, mas um pouco menos pior – digamos assim. Creio que alguns profissionais e estudantes do Audiovisual – assim como alguns cinéfilos – acharão este filme “perfeito”, “lindo”, “muito competente”. Não discordo de nada disso. Apenas acho que lhe falta algo a mais, uma coisa da qual nenhuma obra de arte, ou produção cultural alguma, deveria prescindir: uma alma. Este filme pretende ter muito coração, mas não parece ter sido feito de coração.

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