Fim dos Tempos (“The Happening”, EUA, 2008) é um filme que não pode ser levado a sério. Juro que eu tentei, mas não dá. Não há nada ali que convença. Sejam as situações mostradas neste filme “catástrofe”, sejam as interpretações dos atores (principalmente a de Mark Wahlberg), seja a trilha sonora, seja a fotografia, seja – mais particularmente – a banalidade do discurso “ecológico” propagado sem a menor fabulação artística no final. Muitas vezes a produção dos discípulos é a degenerescência da obra dos mestres. Por isso, repito o que disse a respeito de A Dama na Água (2006): é bom parar de comparar Shyamalan com cineastas de projeto estético e ideológico mais densos – a não ser que seja para mostrar a cansada decadência típica dos epígonos. Fim dos Tempos é um filme cansativo. Os elementos de autoria (na forma ou no conteúdo) que os filmes de Shyamalan podem nos trazer são muito escassos e pobres para que possamos falar com gosto em uma filmografia.
Continua sendo irritante (e cada vez mais) neste último filme o semi-virtuosismo da câmera e dos efeitos sonoros que (tentam) provocar sustozinhos ridículos, sem qualquer propósito dramático, sem qualquer significado ou implicação. É um cineminha primário, elementar; como eu disse, equivale à literatura média – ou medíocre – do “best-seller”. O pior é que não dá para recomendar que Shyamalan passe a fazer adaptações de Stephen King, visto o histórico de grandes diretores que construíram filmes de verdade, baseados na obra do “mestre do terror psicológico”: basta citar Stanley Kubrick e John Carpenter. Mas com certeza Shyamalan será “o cara” para levar a “obra” de Paulo Coelho para o cinema. Agora, não sei se terei paciência para ver (que Deus nos ajude!) o próximo filme do diretor. Talvez em DVD, num dia em que não tiver absolutamente mais nada para fazer. Quanto aos momentos “dramáticos”, a estupidez aqui rivaliza com a de Olga (Brasil, 2004, dir.: Jayme Monjardim).
Se Fim dos Tempos fosse um filme B, uma história “trash-cult” de “terrir”, poderia merecer algum respeito. Mas o pior é que esta produção “audaciosa” se leva a sério (!). Não é um filme de catástrofe, mas uma catástrofe de filme (com o perdão do trocadilho infame). Enfim, é tanta bobagem cinematográfica que nem sei se vale a pena (se fará alguma diferença) falar do talvez único ponto positivo do filme – que está mais para uma potencialidade frustrada do que para uma realização potente: a insistência paranóica da câmera em filmar o invisível, a ameaça etérea e mortal que se coloca entre a lente da filmadora (na função do nosso olhar) e os objetos concretos e reais do mundo – particularmente a natureza, animada aqui de uma vontade assustadora. Os personagens, assim como o próprio filme, lutam para enxergar e reconhecer a emanação maléfica que “vaza” das coisas. Mas, antes que se fale de um cinema espiritual, de terror psicológico-paranóico, assista-se ao Possuídos (EUA, 2006) de William Friedkin e se terá mais uma prova do lugar que cabe a Shyamalan.

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