Estamos vivendo aqui, com certeza, um momento na história do cinema. A tecnologia de filmes em “3D” não é nenhuma novidade, mas agora ela tem uma qualidade e potencial realmente impressionantes, e está tentando vir para ficar, arrumando seu lugar ao sol em meio à pirataria, à Internet, ao “home theather”. As velhas salas de exibição precisam sobreviver de alguma forma, e a inovação tecnológica é um dos caminhos encontrados pelo cinema dito “industrial”, que demanda gastos exorbitantes, requerendo, com isso, lucros de acordo. Mas isto nós já discutimos anteriormente neste blog. Também já discutimos o caráter único da experiência e da linguagem cinematográfica em 3D (remeto o leitor à postagem referente a Lenda de Beowulf).
O interessante de se pensar agora é: quais os efeitos que o 3D provoca em filmes com atores e cenários “reais”, visto que as experiências anteriores e mais recentes deste renascimento da terceira dimensão processavam-se a partir de animações computadorizadas. A impressão que eu tive é que, por um lado, o 3D “live action” continua absolutamente assombroso – se não até mais – em relação à animação. O retângulo da tela do cinema abre-se – literalmente – como uma janela para o mundo. Toda a fascinação que expressei a respeito da “Lenda de Beowulf” também se aplica a este “Viagem ao Centro da Terra”. Entretanto, por outro lado, a experiência nova proporcionada por este filme não foi tão contínua quanto à do “desenho” anterior.
Acredito que isso se deva, em parte, a ajustes que ainda se devam fazer na tecnologia do 3D aplicada à realidade filmada (na medida em que esses “ajustes” forem efetivamente possíveis); como nova tecnologia, há coisas nela ainda meio brutas, meio toscas. Por exemplo: há um plano, na cena da “montanha russa”, no qual os trilhos mostrados em primeiro plano por uma câmera subjetiva (o 3D dá um novo significado a estes conceitos tão elementares da linguagem audiovisual) são visivelmente falsos, possuem um tamanho proporcional muito menor em relação ao cenário e em relação – até mesmo – aos outros planos dos mesmos trilhos. Fica grosseiramente claro que são maquetes, o que prejudica enormemente o efeito de realidade do 3D. Contudo, no geral esta cena provoca verdadeiro frio na barriga.
Outros momentos “toscos” são os planos em cenários fechados (principalmente um, em que os protagonistas se encontram na pequena sala de uma casa de campo), nos quais as velhas leis de perspectiva – inventadas há 500 anos atrás pelos mestres italianos – são desconsideradas também de maneira grotesca. Parece muito que os personagens estão representando na frente de um painel; e o pior: o diretor calculou muito errado a perspectiva, ou seja, às vezes os atores parecem muito grandes em relação ao cenário, outras vezes muito pequenos. Isto também prejudica demais o efeito de realidade buscado pela terceira dimensão. Assim, alguns dos melhores efeitos em 3D deste filme são alcançados, infelizmente, através de imagens com efeitos especiais computadorizados. De que adianta o “live action” então?
Agora, tais defeitos são os limites da tecnologia ou limitações da capacidade do diretor? (Eric Brevig foi o responsável pelos efeitos especiais de Pearl Harbor – 2001 –, ganhadores do Oscar). Outro problema, este assinalado pela crítica e da responsabilidade de fato do diretor, é a escolha que ele fez por planos de curta duração (afinal, é um filme de ação e aventura para crianças), que prejudicam a assimilação do efeito 3D, pois não há tempo para o espectador digerir adequadamente a imagem, mergulhar nela. Neste aspecto, a experiência proporcionada pelo “Beowulf” de Robert Zemeckis é bem mais interessante, uma vez que lá os planos são mais longos e mais dotados de movimentos de câmera que potencializam o efeito das três dimensões.
Vamos esperar agora o Avatar de James Cameron e conferir o próximo passo da tecnologia e da arte do 3D. De qualquer maneira, é bem interessante testemunhar a reação da platéia na sala de cinema, principalmente das crianças. São gritos e expressões de assombro naqueles planos feitos para apresentar mesmo a nova tecnologia. Creio que não era muito diferente disso a reação que tinham os primeiros espectadores do cinematógrafo. Quanto ao filme “em si”, a adaptação feita de Júlio Verne é o resumo do resumo da obra, simplificada e atualizada ao máximo, mas sem distorcê-la ou banalizá-la excessivamente. Levando em conta que o próprio escritor francês direcionava seus livros ao público juvenil mesmo, esta adaptação tem valor. E Brendan Fraser entra bem no espírito de “brincadeira” de filmes assim.

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