Um belo dia (antes do natal), junto da correspondência cotidiana, o Sr. Carpenter recebe um telegrama, destinado à sua esposa, avisando do início de um serviço de construção e decoração a ser prestado na velha casa da Inglaterra, requerido por Hermione. Abre tranqüilamente o envelope e o que descobre deixa-o tórrido: o serviço era a construção de uma adega de vinhos no porão, para a qual seria escavado um buraco no chão mais profundo do que a cova rasa fabricada pelo assassino. O Sr. Herbert descobre, da pior maneira, por que a esposa queria tanto que eles voltassem para o natal. Como sempre, a ironia é a chave do fecho de ouro da narrativa. E a direção segura de Hitchcock se faz expressiva particularmente no momento em que Herbert está a escavar o buraco retangular no porão, posicionado em uma das cabeceiras, enquanto a esposa, na outra ponta, lhe fala da inutilidade de ele se preocupar em escavar com medidas tão precisas e exageradas.
A câmera, então, fixa um primeiro plano no rosto preocupado de Herbert, no qual logo adivinhamos segundas intenções. Ele mede com o olhar o buraco, ostensivamente. A câmera, então, num movimento subjetivo, traça uma panorâmica do buraco, de uma ponta à outra, onde encontra os pés de Hermione. Porém, o olhar perscrutador da câmera (e do próprio Sr. Carpenter) não para aí; sobe pelas pernas da mulher até encontrar a sua cabeça que fala sem parar. É neste momento, através deste movimento de câmera, ligado ao primeiro plano inicial do rosto obcecado do homem, que percebemos a verdade: que aquele buraco não é para acomodar vinhos, e sim o cadáver da mulher – que o marido pretende matar. Eis mais um perfeito exemplo da arte de Alfred Hitchcock: expressar pensamentos através de meios exclusivamente cinematográficos. Ao longo do episódio, o uso significativo da profundidade de campo e a insistência de primeiros planos no rosto preocupado do Sr. Herbert também são marcas indeléveis do maior diretor de todos os tempos.

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