Há alguma coisa neste Batman – O Cavaleiro das Trevas (“The Dark Knight”, EUA, 2008, dir.: Christopher Nolan) que desvia dos códigos tradicionais dos filmes de super-heróis. Talvez muita coisa, e muita coisa óbvia. Já é bem grande a distância entre as duas releituras que Christopher Nolan fez do “homem-morcego” (incluindo o Batman Begins, de 2005) e as duas já clássicas versões de Tim Burton (respectivamente: Batman – 1989; e Batman Returns – 1992). Por mais interessante que sejam as produções de Burton, há algo nelas que já envelheceu, talvez o caráter romântico, de fábula (até mesmo infantil – marca registrada do diretor). Enfim, o Batman de Burton está mais para o super-herói tradicional, apesar da atmosfera “byroniana” dos filmes.
Já o homem-morcego de Nolan prioriza o ultra-realismo (quase um naturalismo) que parece caracterizar o gosto contemporâneo. O lusco-fusco ético e moral deste “Cavaleiro das Trevas”, as questões psicológicas e sobretudo sociais que são apresentadas e discutidas fazem o filme parecer mais um drama, um “thriller”, do que uma aventura de mocinho e bandido. Este Batman está mais para Jason Bourne do que para James Bond. O título original The Dark Knight é mais do que adequado. É claro que no final do filme sobrecarrega-se um pouco a dose de condescendência, mas afinal de contas não deixa de se tratar de uma película de Hollywood com censura de 12 anos de idade.
Nos filmes de Burton, há algo (muito talvez) de circense – o que não é mau. O magnífico Coringa de Jack Nicholson puxa mais para o clássico Coringa de César Romero, da clássica – e burlesca – série de TV. Já este “Joker” de Heath Ledger é produto dos psicopatas de filmes policiais ou de terror contemporâneos. O próprio fato de a sua maquiagem ser maquiagem mesmo, e de o seu sorriso largo ter sido representado através daquelas cicatrizes bizarras já revela bastante sobre a proposta “adulta” deste filme. De resto, esta Gothan City não é de jeito nenhum aquela cidadela caricata de contos de fada macabros do ultra-romantismo (tal como ela aparece em Burton).
A “cidade gótica” de Nolan não é nada mais nada menos do que a “polis” contemporânea: absolutamente esquizofrênica. Não é uma comunidade de verdade, mas um aglomerado no qual as partes não compõem um todo coeso e coerente. Chame-se isso de decadência, mas talvez seja apenas o resultado da industrialização e da cultura do consumo. Quem vive em São Paulo ou no Rio de Janeiro entende muito bem isso. Aliás, nossas cidades é que são “Gothans” de verdade… Corroída pela violência, pela indiferença, pelo cansaço, pela ansiedade, pela corrupção, pelo egoísmo, pela hipocrisia, Gothan City é a civilização encarnada muito bem pelos seus personagens: o promotor Harvey “Duas Caras” Dent, o psicótico anarquista Coringa e o cavaleiro andante Batman.
São facetas aparentemente contraditórias, mas que se completam. Se Christopher Nolan decidir abandonar a franquia, um diretor com certeza interessante para assumi-la seria David Fincher. Enfim, é difícil estabelecer paralelos entre este “Batman” e outros filmes de super-heróis uniformizados e mascarados. Este fruto se encaixa na árvore genética de outros tipos de fitas, com outras propostas. E é um filme que funciona muito fluentemente, também graças ao incrível elenco de apoio: Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman… Só esses atores todos já valem a diversão. E que continuem deixando o infeliz do Robin de fora, por favor.

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