Os sonhos: não importa qual seja a sua fórmula – tão sucintamente explicada pelo personagem de Gael Garcia Bernal –: não interessa se os sonhos são construídos no inconsciente à base dos processos de condensação e deslocamento com vistas a expressar conteúdos reprimidos pelo ego; assim como não tem qualquer relevância a hipótese de os mesmos sonhos serem atualizações de velhos arquétipos que promovam a comunhão do indivíduo com a alma íntima de toda a espécie humana. Os nossos melhores sonhos (tanto o “nightdream” quanto o “daydream”) são assombrosamente dotados de imagens voluptuosas. Algumas delas de grande e perturbadora volúpia, e não só no velho e manjado sentido sexual.
Representar artisticamente a tão famosa atmosfera onírica é algo tão difícil quanto fascinante, um desafio que marca sua viva presença em toda a história da cultura humana. Uma das mais ricas soluções para isso é a escolha por imagens desconcertantes. Simples assim. Imagens construídas a partir de elementos que não sejam apenas concretos – obviamente –, mas que expressem, exalem, derramem, gritem sua “concretude” a plenos pulmões. Imagens fortes, chocantes, curiosas, inquietantes, que expressem (o Expressionismo onírico) e que impressionem (o Impressionismo, também sonhador). Mas tudo isso é paradigmático. Quanto ao plano do sintagma, a grande “arte do sono” busca combinações não menos criativas entre tais imagens (o Surrealismo, a conexão metafórica entre elementos dos mais distantes entre si).
Eis a tão peculiar linguagem do sonho. Eis a tão peculiar imagética utilizada por Michel Gondry em The Science of Sleep (“La Science des Rêves”, França, Itália, 2006). Um belo filme de imagens desconcertantes, concretas e abstratas a um só tempo, objetivas e subjetivas, reais e imaginárias – as fronteiras em questão são mais do que cambiáveis. Acredito que a grande vocação do Cinema não seja a épica (imagens da realidade exterior), mas a lírica (a tão fugidia realidade “interior”). Um cinema de poesia, que objetiva a subjetividade, e subjetiva a objetividade. Antropomorfismo e Cosmomorfismo, na expressão tão feliz de Edgar Morin (em “O Cinema ou o Homem Imaginário”). Eis a grande metafísica da Sétima Arte.
Tentar mostrar, o tanto quanto se deseja, tudo aquilo que não é passível de ser mostrado. Eis o heróico e o ridículo dos filmes. Como eu disse a respeito de Be Kind Rewind (2008), a decupagem, a construção material das imagens neste “A Ciência do Sono”, também de Michel Gondry, emula algo dos pioneiros do cinema, algo de Méliès, Zecca e cia. Os movimentos desajeitados do cavalo onírico de Gondry parecem uma resposta ao cavalo “real” de Muybridge (que realizou a primeira filmagem da história, em 1872). Uma resposta que diz: o cinema não está lá fora, mas aqui dentro… Além do mais, The Science of Sleep compõe, junto de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança (2004), o grande par das histórias de amor disfuncionais (apesar de tal classificação ser terrivelmente banal, deixando de lado toda a magnífica sensibilidade e sutileza dessas obras). The Science of Sleep jamais foi exibido no circuito comercial brasileiro, tampouco foi lançado em DVD.
Para encerrar, deixo este filme como receita a todos os corações sonhadores, criativos e sobretudo os apaixonados, mas tímidos…

Deixe um comentário