Todos os “mortos”, os “loosers”, as vítimas de “bullying”, os corações demasiado sensíveis, quebrados – ou que nunca chegaram a se “construir” – encontram a sua expressão na arte de Burton. Mas antes que o chamem de romântico, gótico ou “emo”, saibam que o diretor de A Noiva Cadáver (“Corpse Bride”, EUA, 2005) é um artista que supera as rotulações. Ele é dotado de uma visão de mundo pessoal e facilmente perceptível, ainda que influenciada fortemente por certas tradições culturais muito bem fundamentadas. Mas é justamente esta a dialética do artista. Talvez o mais interessante em Burton seja a leveza com que conduz conteúdos e formas pesadas, uma leveza mesmo infanto-juvenil, fresca, ingênua e dotada de um sensível humor – mas não aquela ironia macabra do Ultra-Romantismo, pelo menos não o tempo todo.
Daí que Burton é altamente recomendável para as crianças que querem encontrar o lado adulto das coisas mais essenciais da vida, do mundo e do ser humano; assim como aproveitará bem seus filmes o adulto que deseja (re)encontrar a infância. Também isto é muito dialético. Burton revela o lado “dark” do universo infantil e o lado infantil do universo “dark”. E sabe o que é melhor? Nem dá pra saber qual é qual direito… De qualquer modo, o mundo “downstairs” é muito mais colorido mesmo que o “upstairs”. O “morto” é mais vivo do que os vivos, que são verdadeiramente mortos… Mas, antes que isto sirva de inspiração aqueles espíritos maliciosos e sectários (góticos, emos, e outras laias) que se trancam em sua própria torre de marfim, saibam que Tim Burton promove, acima de tudo, o encontro, a reconciliação e a mistura entre os dois mundos. Eis o toque do artista.

Deixe um comentário