O cinema ideológico do mestre Romero é bem simples, no fundo. Mas, a cada filme, o inventor das fitas “de zumbi” sabe se reinventar, sabe promover variações novas e estimulantes de um mesmo tema básico que, nas mãos de qualquer outro diretor, já teria se esgotado há muito tempo, longe no entanto de atingir o ápice do seu potencial de fabulação. Neste “spin off” de A Noite dos Mortos Vivos (1968), a astúcia do cineasta se aproveita da filmagem “amadora” que é uma das grandes tendências do cinema contemporâneo. O amadorismo aqui não é apenas um princípio estético, mas um recurso de fabulação narrativa, quero dizer, seguindo a linha iniciada pela Bruxa de Blair (1999) e que, recentemente, produziu dois frutos interessantíssimos: Cloverfield (2008) e Rec (2007), este último também um filme de zumbi.
A mitologia dos mortos que andam e comem a carne dos vivos está em todo lugar hoje em dia, até mesmo nos vídeo-games (vide as séries “Resident Evil” e Silent Hill”). E, por mais que sejam interessantes algumas produções, Romero sempre reaparece e mostra quem é o criador e mestre. Se, no meio de tantas porcarias, tinha surgido algo interessante como Extermínio (2002), veio Romero e fez A Terra dos Mortos (2005), melhor ainda, obra não apenas de mestre, mas de gênio inventor. Então, apareceu o espanhol Rec, que trouxe para o gênero a estética e o princípio de fabulação da “câmera na mão” (o filme que nada mais é do que a filmagem “documental” dos acontecimentos captados por alguém, sem qualquer “decupagem”). Mas eis que surge Romero com o seu “diário” dos mortos e bate de lavada, vencendo a partida, por mais que o adversário tivesse valor e tenha feito uma boa luta.
O ultra-realismo da filmagem amadora, inconsciente, sem decupagem, aproveita-se aqui de citações à estética dos “reality shows”, do uso de câmeras de telefones celulares, de computadores ligados à Internet, com os devidos sites de vídeo do tipo Youtube, sem contar as velhas imagens de TV captadas por cinegrafistas amadores. Há um diálogo entre os personagens que expressa exatamente o espírito do filme: fala-se das pessoas normais com suas câmeras caseiras no meio de grandes catástrofes, compelidas a mostrar sua visão pessoal das coisas… O filme tem várias sacadas assim. Entretanto, no meio da estética “amadora”, percebemos a arte cinematográfica muito bem pensada de Romero. Por exemplo, na bem sacada profundidade de campo logo no começo do filme, que mostra o primeiro ataque zumbi com uma surpresa digna mesmo desse primeiro ataque, surpresa que impressiona muito o espectador, graças a tal profundidade de campo, da maneira como ela foi construída ali.
Mas vamos lá. Qual é o grande diferencial dos filmes de zumbi de Romero, e que se faz muito presente também neste “Diário dos Mortos”? Vamos começar pela ironia. São hilários aqui o Amish surdo, confundido com zumbi, o palhaço de festa infantil – efetivamente zumbi – e principalmente a incrível ironia de uma cena perto do final, que retoma outra cena, do começo do filme. Outro elemento tipicamente romeriano é o comentário social, crítico, subversivo e contra-cultural: de novo aparece aqui a questão racial dos EUA, com os negros aproveitando a oportunidade do apocalipse zumbi para finalmente “assumir” o poder; milícias brancas de saqueadores; caipiras que brincam de tiro ao alvo com zumbis; execuções sumárias; questões de família (em cenas bem fortes, nas quais entra a questão dos limites psicológicos das pessoas em situações de limites sociais).
Mas o principal neste filme, a respeito dos fatos sociais, é o poder da imagem audiovisual, de mostrar ou inventar a realidade, revelar ou esconder, muito graças ao trabalho discursivo da edição / montagem de vídeo, que é o verdadeiro caráter da linguagem cinematográfica, de acordo com a melhor tradição do cinema ideológico, que é a de Eisenstein e cia. A fábula / parábola social de Romero é bem explícita e didática: discute-se aqui o poder da mídia que “constrói” os fatos, orientando com isso a visão e a opinião do público. Mais uma alfinetada na política norte-americana pós-11/09. De resto, Romero é um revolucionário da velha guarda: sua fábula-apocalipse da “morte da morte” (parece Saramago isso), no fundo, não é nenhuma tragédia. É uma história de esperança (!). Pode acreditar. Os zumbis de Romero encarnam a marcha revolucionária que ameaçou, mas não chegou, lá nos anos 60. Mas o cineasta não perde as esperanças.

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