Mais uma vez, a “joie de vivre” predomina – mas sem qualquer sombra de frivolidade. As desgraças não são mostradas como rupturas, mas como marcas de um caminho interessantíssimo a ser percorrido, cujo destino final será nada mais nada menos do que a experiência – que é o que mais vale nesta vida. Os acontecimentos negativos (disfóricos) são tratados pelo diretor com a mesma paixão e valor que os acontecimentos “positivos” (eufóricos). Na economia sentimental de Honoré, tudo vale a pena (não interessa se a alma é pequena ou não, pois a própria vida se encarregará de engrandecer todas as almas). Está explicada, então, a escolha de se influenciar (numa livre adaptação) pelo romance “A Princesa de Clèves” (publicado originalmente em 1678), de Madame de La Fayette. A obra é considerada o primeiro romance psicológico da literatura francesa e já tinha inspirado um filme: A Carta (1999), de Manuel de Oliveira.
A Bela Junie é também o resultado da proposta de Honoré em filmar o universo adolescente, particularmente dois de seus aspectos mais peculiares e difíceis: o amor e a beleza – segundo declarações do próprio diretor. É claro que não poderia faltar a presença do ator-fetiche Louis Garrel. Na história, temos a jovem Junie (na faixa dos seus 16 ou 17 anos), menina altamente sensível e um tanto misteriosa, que chama a atenção do colega de classe Otto – com quem começa a “ficar” – e do professor de italiano Nemours (Garrel), o qual também se apaixona pela garota. Ambos a veem como uma personalidade bastante diferente e promissora em relação à frivolidade geral das outras garotas. Em pouco tempo, Junie passará a gostar também do seu professor, e é aí que a porca torcerá o rabo, pois Junie não é uma adolescente como outras que o galã Nemours “cata”, nem mesmo ele está a fim de tratá-la como se fosse. Quando o caso é sério, as decisões ficam bem difíceis de serem tomadas.
A Bela Junie é uma produção para a TV, menos ambiciosa cinematograficamente do que Em Paris ou Canções de Amor, e com uma pegada mais literária, romanesca. Parece um daqueles filmes mais simples, mais humildes, que os diretores fazem no “interlúdio” entre suas “grandes” realizações, só para não perder o hábito – ou a renda. Por isso mesmo, esta fita não possui o lado meio chato das prepotências “vintage” nouvellevagueanas que dão a marca aos dois filmes anteriores (por mais que eu adore a estética da nouvelle-vague). Vale pelo que mostra, ainda mais que não se deixa afetar pelas igualmente detestáveis prepotências de se querer fazer tese psicológica ou sociológica sobre a adolescência e a juventude (praga que ainda está a ser expurgada dos meios audiovisuais). Uma visão natural para coisas que estão aí: as diferentes variantes e variáveis do amor, da paixão e do desejo.

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