No modo de vida “fordista” da era industrial, o indivíduo é transformado em um autômato, condenado a repetir solitariamente os mesmos gestos, já esvaziados de qualquer significação (pelo menos, no âmbito de sua própria consciência). Para Benjamin, ao exilar o indivíduo das trocas humanas da coletividade (e do seu próprio conhecimento), o capitalismo arranca dele a sua própria história – uma vez que esta se acha sempre vinculada a uma tradição. Desmantelado o coletivo, desaparecerá do indivíduo a capacidade de narrar, pois a narrativa supõe uma experiência em comum (o contato e as vivências comuns entre o “contador” e o ouvinte).
Extinta a narrativa – grande elo de ligação entre a dimensão individual e a coletiva da vida e da história – extinguir-se-á também a faculdade da memória. A dissociação entre as pessoas e o seu próprio patrimônio cultural é o princípio do nascimento da barbárie, ainda segundo o filósofo. É por aí que começamos a compreender a natureza da “culpa” de todos nós, segundo o curto e tão inflamado discurso do jovem estudante companheiro do protagonista Michael Berg, no filme de Daldry. É por aí também que devemos analisar o fato de a proletária e analfabeta Hanna Schmitz ter tomado parte na barbárie, mesmo sem revelar dentro de si qualquer sinal de uma personalidade sádica, doentia, ou o que quer que seja.
E também sem revelar qualquer sinal de concordância ideológica com o regime vigente (muito provavelmente, ela mal saberia explicar qual era a proposta político-ideológica do partido “nacional-socialista”). Perceba-se que este caso, que se enquadra bem dentro daquele dos autômatos da era industrial de que fala Benjamin, vítimas e autores da barbárie a um só tempo e que se encontram particularmente dentre as classes proletárias, este caso é bem diferente dos oficiais que em Nuremberg alegavam que apenas “cumpriam ordens”. O pragmatismo das ações “criminosas” de Hanna Schmitz, conforme ela as explica aos juízes em seu próprio julgamento, condiz antes com uma visão – digamos – “fordista” do seu trabalho do que com qualquer princípio de “maldade”, psicológica, social ou filosófica.
Hanna é antes uma ingênua, “alienada” – para colocar em termos sociológicos –, do que propriamente “nazista”. Assim como muitos dos trabalhadores do nosso tempo, estejam eles nas fábricas, nos escritórios, nas escolas, hospitais, etc. Agora, a pergunta que surgirá é: mas será que nossos trabalhadores seriam capazes de assassinar? E alguém quer fazer o teste? Ou seja, oferecendo de novo todas as condições para o estabelecimento social e político da barbárie? Hanna Schmitz é o paradigma do indivíduo desvinculado de uma coletividade significativa; conseqüentemente, desvinculado de si mesmo, sem memória, sem história e sem a capacidade de narrar.
Quem é ela, exatamente? O filme só nos revela sua pseudo-história da pseudo-coletividade do capitalismo na barbárie; ou seja, ela era funcionária de uma grande corporação que decidiu alistar-se na SS em busca de melhores condições profissionais. Mas qual é a sua família? Qual a sua história pessoal, história de vida? Há um grande vazio. Não se trata de uma lacuna não-preenchida pelo filme, mas de um vácuo mesmo, rigorosamente calculado pelo roteirista (ou pelo romancista). Simbolicamente, ela não tem vida, família ou história. E seu analfabetismo simboliza a sua carência narrativa. Tais indivíduos são o primeiro efeito da barbárie, estão dentre os seus primeiros sinais; e a barbárie retirará o mais de sua força e eficácia de indivíduos nessas condições.
Contudo, a barbárie jamais poderá arrancar das pessoas a própria carência de narrativas, o desejo, a necessidade, a mera intuição de que há dimensões transcendentes ao indivíduo que precisam ser exploradas. E é nesse campo que o filme se impõe, como discurso narrativo e tomada de posição em relação aos fatos. Comecemos pela necessidade da própria Hanna, que fará com que suas cativas (no campo de concentração) e, posteriormente, com que o próprio Michael Berg leia para ela toda a sorte de literaturas. Sentimos nela uma ânsia curiosa quase infantil de conhecer e descobrir tudo o que é novo – e o que é novo para ela é praticamente tudo, em termos de história das experiências humanas, desde a Odisséia de Homero até O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence, passando por obras infantis.
As leituras que as cativas e o jovem Sr. Berg faziam à Hanna são a maior, mais bela e eficiente arma que este filme oferece contra a barbárie. Perceba-se o como que o elemento de humanidade revelado aí não serve (não deve servir) para atenuar a culpa de Hanna, mas tal humanidade é a única coisa capaz de prevenir ou curar a barbárie, impedindo assim para sempre que surjam novas “Hannas”. Naturalmente, a vítima mais imediata de Hanna, sobrevivente ao holocausto, não compreenderá tal dimensão dos fatos e das pessoas – nem é o caso mesmo de que ela compreenda. Por isso, é muito forte, bela e significativa a cena em que o Sr. Berg tenta, em vão, explicar à antiga vítima quem era, na verdade, Hanna – logicamente, sem qualquer tentativa de inocentá-la.
É mais forte, bela e significativa ainda a reação emocional de Berg a esse fato, sua angústia, uma angústia que ninguém mais poderá entender. Assim, dentro da função política e moral que a narrativa exerce neste filme, temos as narrativas que eram lidas para Hanna Schmitz, aprendizado de sua humanidade. Em contraste, há o livro de memórias de uma sobrevivente do holocausto, vítima imediata de Hanna (o qual será usado em sua acusação). Tal livro é a eternização da memória, a constante presentificação do passado, para que a barbárie nunca mais volte a acontecer (Benjamin). No final, haverá a narrativa do próprio Sr. Berg – que, no entanto, já aparece desde o começo e constitui a maior parte do filme, nos “flashbacks” de sua memória afetiva.
A última cena é exemplar: Michael Berg, já um homem de meia-idade, começando a contar a sua história com Hanna Schmitz para a filha adolescente. É a maravilhosa função redentora da narrativa; externar, expressar a memória a um outro, construindo e mantendo com isso uma coletividade significativa – mesmo que seja apenas, em princípio, a da estrutura familiar. O protagonista, dessa maneira, livra-se do peso individual da memória e da experiência humana, compartilhando-a com outros (sua filha e também com a antiga vítima de Hanna), dando a outros algo que é, na verdade coletivo. O Sr. Berg, assim, também se põe significativamente na dimensão da coletividade, o que fará por completar a sua própria realização enquanto indivíduo. Se no começo do filme, ele é um homem atormentado pelo passado, no final a situação se transfigurará. Mais uma lição contra a barbárie.

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