A proximidade entre o olhar cinematográfico e a figura de Ram é patente principalmente na maneira como a câmera o segue insistentemente pelas costas: é inevitável não lembrar o Gus Van Sant de Elephant e de Last Days. E, assim como sentimos no filme que trata dos “últimos dias” de Kurt Cobain, o discurso audiovisual em O Lutador não apenas mostra a curiosa mistura entre o patético e o ridículo do personagem anti-herói; ele constrói boa parte dessas impressões e as comunica ao espectador com uma clareza quase dissertativa. Documentário? Tal classificação poderia soar como um eufemismo, em alguns momentos.
Por exemplo: a cena da primeira entrada de Ram no balcão de frios, dentro do supermercado no qual ele deverá trabalhar após sofrer um infarto e não poder mais lutar nos ringues. Esta cena emula a primeira do filme: vemos Ram – sempre pelas costas – saindo dos mais profundos “backstages” e atravessando áreas e pessoas até chegar no seu “palco”, enquanto ouvimos aumentar gradativamente o som entusiasmado das platéias ansiosas. No entanto, esse mesmo som, aplicado de modo obviamente não-diegético na cena do supermercado, atribui à cena toda um comentário não só irônico, como extremamente sarcástico.
Toda a decupagem aqui é um comentário, que evoca o das colunas sociais – ou esportivas. Ram, com todas as suas idiossincrasias, é um personagem amável, e o filme o mostra com carinho. Mas um carinho nem um pouco ingênuo. A câmera não desgruda dele. Praticamente todo o filme se passa a uma distância não maior do que a de um plano americano, em relação a Ram e a outros personagens que interagem com ele. No entanto, não vemos o que ele vê. Proximidade do personagem, mas um olhar que não se confunde com o seu. O efeito disso no espectador é bem peculiar. O Lutador é dotado de toda a carga de auto-afirmação do protagonista que o título já sugere.
Mas repito: não se trata de uma elegia ingênua. A última imagem que vemos na tela é exemplar: num contre-plongée de ângulo rigorosamente reto de 90 graus, vemos Ram saltando de cima do “corner” do ringue sobre seu oponente caído no chão – ou seja, saltando sobre nós, espectadores. Contando assim, pode parecer um recurso cinematograficamente ingênuo, mas considerando que este final possui um significado – para alguns, perturbadoramente – aberto, saímos do cinema curvados com todo o peso do corpo de Ram sobre nós e curvados também sob o peso da dúvida. Mas a dúvida – meramente factual – é aqui o de menos.
Talvez o que mais pese, junto do corpo, é o peso do espírito de Ram, dotado daquelas personalidades que não nos oferecem segurança alguma, mas que intuímos, nelas próprias, a mais inabalável segurança. O mesmo pode ser dito, talvez, da personalidade do próprio filme. Outra cena, deliciosa e cruelmente sarcástica, é a que começa mostrando uma luta pelo seu final e “afterwards” no vestiário, com os lutadores completamente ensangüentados, e logo em seguida, passa a mostrar, em montagem paralela, o início da mesma luta, com os “wrestlers” delicadamente sentados em cadeiras no ringue, dando tapas um na cara do outro. Enfim, é um filme bem divertido.

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