Isso não quer dizer que Zack Snider tenha grande talento ou competência como cineasta. Sua felicidade é a mesma que Tom Cruise, por exemplo, tem como ator: seu tipo físico e personalidade simplesmente ficam perfeitos com tais papéis e quais histórias. Uma vez que ambos possuam plena consciência disso e orientem suas carreiras de acordo, ponto para eles. Watchmen é um filme perfeito, em sua proposta. Não gosto do tipo de afirmação que vou fazer, mas corro os riscos mesmo assim: Watchmen é a melhor adaptação que o cinema já empreendeu de uma história em quadrinhos. Temos aí um grande parâmetro para o que vier depois.
É preciso entender que os filmes que se fazem baseados em super-heróis dos gibis não são, geralmente, adaptações de alguma história específica (graphic novel, minissérie, etc). A fantasia em destaque, nesse caso, é transformar em carne e osso figuras míticas que até então só eram vistas na “pulp fiction”. Eis o grande valor do mais recente Batman, de Christopher Nolan (e também, mais ainda, o grande valor do Coringa representado por Heath Ledger). São, essencialmente, filmes de cinema, que não se preocupam – logicamente – em imitar a linguagem quadrinística, cujo maior valor (e limite, ao mesmo tempo) é sugerir um efeito, uma impressão de imagens em movimento, organizadas segundo as leis da montagem cinematográfica.
É por isso que as tentativas de transformar a tela do cinema numa página de gibi, empreendidas por Ang Lee no seu Hulk (2003), não são mais do que risíveis – uma curiosidade pitoresca tal qual as antigas engenhocas que tentavam “animar” as imagens antes da invenção do cinematógrafo. Lee errou porque tentou levar, literalmente, o papel para a tela. Não entendeu que a essência de uma determinada forma de linguagem não está nos meios físicos que ela utiliza, mas no modo como o próprio código (os paradigmas e os sintagmas; no caso, a fotografia e a montagem) se desenvolve utilizando o potencial e os limites dos meios tais (papel ou película).
E é exatamente onde Ang Lee fracassa que Zack Snider triunfará. Mas ele já estava com a faca e o queijo na mão. O caminho lhe tinha sido aberto, preparado e pavimentado por Alan Moore e Dave Gibbons, que empreenderam uma das mais (senão a mais) cinematográfica obra dos quadrinhos. Em termos de decupagem, era muito fácil levar Watchmen do papel para a tela grande (para quem dispusesse dos recursos financeiros e tecnológicos para tanto, é claro). A “maxissérie” original (12 volumes) já era praticamente o storyboard para um filme. Que bom que Snider entendeu (e muito bem) isso. A longa duração da fita (162 minutos; será lançada nos EUA um DVD com versões estendidas que chegarão a 205 minutos) atesta o fato.
Watchmen, o filme, é uma cópia, quase quadro a quadro, da obra original (e pensar que existe uma versão em I-MAX que, até agora, está sem data de estréia no Brasil). Estão ali todos os elementos que fazem a sofisticação artística de Alan Moore e Dave Gibbons: os “movimentos de câmera”, a ironia, os paralelismos metafóricos (envolvendo diversos planos da narrativa, seja numa montagem paralela, seja usando a profundidade de campo), a intrincada intertextualidade (que o filme trabalha bastante utilizando a trilha sonora, incrível acréscimo estético em relação aos quadrinhos: as letras das músicas, dentre as quais contamos Nat King Cole, Bob Dylan e Jimi Hendrix, parecem comentar – às vezes ironicamente – o que se passa na cena).
Tanta virtuose é natural que caia como uma luva para duas obras com a proposta pós-moderna de desconstruir a cultura pop e a civilização da qual ela é a expressão-mor. Em outros contextos, Watchmen soaria constrangedoramente pueril. Enfim, este filme deve ser pensado com o mesmo rigor e seriedade com que se pensa em adaptações de obras literárias. Mais do que fidelidade, as equivalência e pertinências estéticas e temáticas que podemos traçar entre o original e a adaptação são grandes exemplos do que se pode conquistar quando se tem visão e sensibilidade suficientes para compreender uma proposta, um projeto. E me digam uma coisa: o que é aquele Rorschach, hein?!

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