Dentro desta missão, tornou-se praticamente uma obrigação para qualquer escritor brasileiro que pretendesse granjear qualquer reconhecimento, no Brasil e no exterior (pois os intelectuais, críticos e artistas estrangeiros também acreditavam na missão), falar e mostrar em suas obras – sempre de uma maneira positiva, é lógico – aquele lado bom, bonito e gostoso da terra do samba e do futebol (que não existiam naquela época, evidentemente). Ou seja, a literatura nacional precisava ter a “cor local”. Tal obrigação era sempre muito implícita, e fazia-se um grande constrangimento quando o escritor a ousava desobedecer. As críticas eram tão agressivas, como se fosse um caso de traição da pátria. O pobre do escritor era imediatamente acusado de fazer pastiche da literatura européia colonialista. Esta situação soa familiar? Pois é aí que eu quero chegar…
Trocando em miúdos, a nossa literatura (assim como todas as expressões culturais brasileiras) deveria ser nada mais nada menos do que “macumba para estrangeiro”. Este estado de coisas assolou durante muito tempo a nossa produção literária, impedindo-a de se desenvolver e amadurecer. A revolução começou a chegar com o grande Machado de Assis – nosso escritor maior, já se aproximando do final do século. Mesmo assim, o bruxo do Cosme Velho demorou muito para começar a ser aceito. Obras que hoje são fundamentais, como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, eram execradas precisamente por não possuírem a maldita cor local. Mas a evolução não pode ser para sempre contida, e hoje a Literatura Brasileira (graças também aos revolucionários modernistas) pode ter uma conversa de “gente grande” com qualquer outra literatura de qualquer país, apesar dos Jorge Amados da vida…
Já dá para imaginar o que tudo isso tem a ver com o nosso Cinema, não? Pois bem. Na história aos trancos e barrancos do cinema brasileiro, muito daquela velha cor local romântica foi logicamente (re)aproveitada, incluindo aí “novidades” como o carnaval. Carmen Miranda é o maior mito desta cultura, junto de outros exemplos antológicos, como os filmes “Aitaré da Praia” (1925) e “Caiçara” (1950), assim como parte considerável das produções das nossas grandes companhias cinematográficas: a Cinédia, a Vera Cruz e a Atlântida. A ordem do dia era: cinema profissional e industrial nos moldes de Hollywood, mas adaptado ao “contexto” brasileiro, ou seja, com a velha cor local. Nisto, muitas adaptações dos antigos escritores românticos foram empreendidas: principalmente das obras indianistas de José de Alencar: “O Guarani” (1916), “Iracema” (1918) e “Ubirajara” (1919), e da obra sertaneja de Visconde de Taunay: “Inocência” (1915). Só para citar os casos pioneiros, para se ver como a coisa é antiga.
No entanto, a partir dos anos 60 e 70 (Cinema Novo, Cinema Marginal, “Udigrudi”), começou a se desenvolver uma outra linha, totalmente oposta e – aparentemente – mais madura. Assim como, lá no final do século XIX, os romances naturalistas de gente como Aluísio Azevedo procuraram destruir a mitologia romântica a respeito do Brasil e mostrar a realidade mais “podre” dos fatos (a miséria, a violência, etc), o Cinema “Naturalista” mergulhou de cabeça no mundo cão, particularmente o urbano. Os ecos de tal escola se prolongam até hoje, e com muita força – que cineasta ou cinéfilo contemporâneo não acende suas velinhas e se ajoelha no altar de santidades como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Rogério Sganzerla?…
Os maiores sucessos do cinema brasileiro da retomada atestam a tese: “Cidade de Deus” (2002, dir.: Fernando Meireles), que concorreu a quatro Oscars; “Tropa de Elite” (2007, dir.: José Padilha), vencedor do mais recente Urso de Ouro em Berlim. O problema é que tudo isto já se transformou numa onda (ou sempre foi uma onda), quer dizer, eis a “missão” do cinema nacional contemporâneo: fazer filmes de tese (como a literatura do Naturalismo) que discutam os problemas do país (desigualdade social, corrupção política, miséria e sobretudo a violência). Eis a nova Cor Local. Apesar de ser de natureza completamente oposta à cor local romântica, o Naturalismo também possui a sua cor própria.
É tudo uma questão de fórmulas que vão se tornando cada vez mais prontas, fórmulas que servem para agradar o público e o crítico, de acordo com os princípios mais elementares da catarse aristotélica. E continua sendo “macumba para estrangeiro”: alguém duvida de que aquilo que o estrangeiro (principalmente nos países mais desenvolvidos) mais quer ver a respeito do Brasil são “mostras do subdesenvolvimento”? Eis a imagem nacional que mais chega até eles, graças a telejornais e a filmes assim. A coisa toda acaba virando um círculo vicioso. O cinema, em princípio, apenas “mostra”, “denuncia” as misérias brasileiras, e o Brasil só é e continua sendo miserável (aos olhos da platéia exterior) por causa do cinema…
É claro que há (ótimas) exceções, só para citar as mais recentes: “A Via-Láctea” (Lina Chamie) e “Mutum” (Sandra Kogut). Assim como há os bons e maus filmes da escola naturalista: os dois mais famosos que eu citei mais acima se encaixam dentre os primeiros, e a produção de Cláudio Assis é o paradigma dos segundos. E há também o fato de que a nossa “inteligentzia” já está – logicamente – bem mais madura do que na época do Romantismo; por isso, ninguém vai olhar torto para filmes nacionais que não tenham a cor local naturalista (pelo menos, não aqui dentro…). Mas é preciso um equilíbrio maior entre as tendências das produções. É preciso não se prender tanto ao Naturalismo, mas sem voltar ao velho Romantismo, tampouco imitar o cinema estrangeiro. É preciso ir além de tudo isto. Como? Não sei. Mas a História da Literatura pode dar linhas de inspiração: pensemos na revolução temática e estética de Machado de Assis, de muitos do modernistas (mas não todos), e principalmente de João Guimarães Rosa. Tenho uma fé verdadeiramente messiânica de que um dia ainda vai aparecer no nosso Cinema um Machado ou um Rosa…

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