“Entre os muros”: a escola é mostrada como uma prisão (as cenas que mostram os alunos no pátio durante o recreio comprova a conotação), como um espaço de claustrofobia, não apenas no sentido físico, mas também no simbólico. A mise en scène trabalha bem a favor: a maior parte do filme compõe-se de planos próximos, com aquela câmera “na mão” que evoca uma atmosfera documental e ao mesmo tempo intimista. Desse cinema centrípeto, realizado como teatro, depreende-se então o grande drama da educação no formato escolar dos nossos tempos: a escola não interfere (não mais) no mundo; mas o mundo continua interferindo (e cada vez mais) na escola. Por mais que a instituição tente se blindar das vicissitudes sociais, estas arranjam sempre alguma maneira de furar a barragem.
Como exemplo, temos os dramas dos alunos imigrantes (africanos e asiáticos) e as relações de poder entre professores (e diretoria) e estudantes. Considerando-se que a situação real de uma sala de aula (que o filme mostra muito detalhadamente, em cenas bem longas) envolve uma relação (ou conflito) entre personalidades e grupos sociais dos mais díspares, e que – não obstante os fatos – as políticas educacionais em relação às escolas ainda se moldam com surpreendente dogmatismo em valores “iluministas”, o que é que os professores poderão fazer? “Educar” os alunos à custa da realidade (como se faz no filme) ou abandonar o trabalho (como tenta fazer um dos docentes, esgotado até a alma, numa cena de grande impacto)?
Eis a natureza dos impasses que esta fita evoca com sutileza mas com grande força latente. Que não se espere ver em “Entre Les Murs” uma parábola edificante como os clássicos filmes “de professor” – talvez o mais emblemático deles seja Ao Mestre com Carinho (“To Sir With Love”, EUA, 1967, dir.: James Clavell). A função do filme aqui é problematizar; porém, sem qualquer pretensão científica ou ideológica – o que é o melhor. “Entre Les Murs” apresenta-se como uma simples descrição (sequer narração) do cotidiano de trabalho de um professor e uma de suas turmas, numa espécie de neo-realismo jornalístico – ou de “reality show”. O foco está nas vivências das pessoas e nas relações entre elas, com todas as complicadas implicações aí envolvidas. Quando se pensa em educação, dificilmente se pensa (de verdade) nos seus agentes mais importantes: professores e alunos. Mas aí está o exemplo.

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