O diferencial é que a equipe da Pixar parece dar mais linha à criatividade e à experimentação vanguardistas – excetuando-se, naturalmente, os gênios individuais e relativamente independentes de gente como Tim Burton (A Noiva Cadáver, 2005) e Henry Selick (Coraline, 2009); o grande clássico de ambos ainda é O Estranho Mundo de Jack (“The Nightmare Before Christmas”, 1993). Próximo do universo “gótico” desses dois artistas está o curta que abre a exibição de Up, intitulado Parcialmente Nublado (“Partly Cloudy”).
A Pixar ganhou notoriedade e soube mantê-la ao longo dos anos graças a curta-metragens de animação computadorizada premiados como Luxo Jr. (1986) e Gery’s Game (1998). Arrisco-me a dizer que este Parcialmente Nublado tornar-se-á antológico também. Desde Red’s Dream (outro curta, este de 1987), passando por Knick Knack (curta, 1989), Procurando Nemo (2003), Carros (2006) e os já citados Ratatouille e Wall.E, o estúdio parece ter escolhido como personagens favoritos os párias, ou seres que por alguma razão tornam-se excluídos, renegados, esquecidos, exilados.
Parcialmente Nublado e Up não são diferentes, e é desse romantismo que a Pixar tira sua força muito particular, em histórias corajosamente melancólicas. Em comparação, o cinismo do Shrek da Dreamworks não soa mais do que uma piada de mau gosto. Fazer filmes que funcionem ao mesmo tempo para crianças e para adultos não é bolar personagens e histórias ambíguos que agradem à ingenuidade daquelas e à malícia destes (especialidade da Dreamworks), mas procurar o ponto central na alma dos indivíduos que permanecerá sempre o mesmo em todas as idades.
Esse ponto jamais poderá ser categorizado como infantil ou adulto, embora as crianças e os velhos são os que têm as melhores condições de reconhecê-lo e cultivá-lo. Esse ponto não é a mistura entre o infantil e o adulto, é algo que os transcende. Perpassa toda a nossa vida, ajuda a amarrá-la e dar-lhe significado, mas não deriva dela, ainda que se manifeste nela. Esse ponto é a poesia. Nada mais do que a poesia. E a poesia não pode ser explicada, por mais que a gente tente. Ela deve ser vivenciada. E uma das maneiras para tanto é ver animações como Wall.E ou Up.

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