De Bram Stoker a Anne Rice, passando por poetas da personalidade de Charles Baudelaire, a figura do vampiro sempre representou a entrega às paixões, aos desejos, aos instintos mais essenciais da nossa humana natureza animal. É claro que de maneira problematizadora, com toda a ambiguidade, os dilemas e as contradições barrocas do indivíduo eternamente dividido entre carne e espírito – e isso vai muito além de uma mera questão “moral”. Agora, numa época dominada por produtos da marca de “Crepúsculo”, só temos a lamentar o empobrecimento da figura e experiência humanas, a vilipendiação de de questões muito sérias e profundas.
Lamentamos e tememos as consequências de tais “grifes” para a diversidade cultural. A barbárie volta a nos espreitar. Quem cresceu lendo e assistindo ao Drácula (o de Bram Stoker e o de Francis Ford Coppola) e à Entrevista com o Vampiro (a de Anne Rice e a de Neil Jordan) será simplesmente muito difícil se conformar com a direção da atual moda dos vampiros. Mas não estamos aqui para falar do que não presta. E sim, para mostrar que ainda há esperança, que ainda existe a exceção, que ainda se fazem filmes sobre jovens e sobre vampiros que vão a contrapelo.
Eis o caso de Deixa Ela Entrar (“Let The Right One In”, Suécia, 2008, dir.: Tomas Alfredson). Enquanto coisas como Twilight são produzidas pela mesma cultura da qual fazem parte os famigerados bullies, “Deixa Ela Entrar” é quase um manifesto revolucionário das vítimas deles. Por isso, é absolutamente ridículo o marketing do filme, que tenta arvorá-lo a seu primo rico dizendo que quem é fã deste também o será daquele. Quem gosta mesmo de “Crepúsculo” não vai gostar (pelo menos, não tanto) de “Deixa Ela Entrar”. São públicos diferentes.
Mesmo correndo o risco de cair na simplificação excessiva que quero tanto criticar aqui, explicarei de maneira bem didática: o primeiro tipo de público (as diversas facetas dos “bullies”) seria formado pelo atleta da escola, pela princesinha líder de torcida, pelo valentão “sarado”, pelos gatões e pelas gatinhas, pelos playboys e patricinhas; no segundo time, teríamos os nerds, os feios (e feias), os esquisitos, os alternativos (góticos, emos, indies ou o que quer que seja), os solitários, os godinhos demais (ou magrinhos demais), os pobretões, etc.
“Deixa Ela Entrar” é a (auto) afirmação das diferenças – dos diferentes. É um filme muito bonito em sua feiúra, em seu grotesco, em seu bizarro. É para os fãs, verdadeiros, do universo de artistas como Tim Burton, Guillermo del Toro e Gus Van Sant. A propósito, em relação a este último, a estética utilizada por Tomas Alfredson parece prestar-lhe tributo na câmera próxima demais dos personagens, como que tentando desvendar-lhes as profundezas. A preferência pelos jovens párias, os “outcasts”, também pode ser reputada ao gosto de Van Sant, diretor de Elefante (2003). De resto, a mise en scène apresenta o rigor e a serenidade dos cineastas mais contemplativos, na linha de Tarkovski, Herzog ou Dreyer.
Falando em Carl Theodor Dreyer, diretor de O Vampiro (1932), também sueco, vê-se que “Deixa Ela Entrar” lida muito bem com a tradição das velhas fitas do terror meditativo nórdico. Também nos lembramos de A Carruagem Fantasma (1921), do dinamarquês Victor Sjöström, de cuja tétrica trilha sonora ouvimos alguns ecos na fita de Alfredson. Não há nada de expressionista neste filme, que não se fale no Nosferatu de Murnau. “Deixa Ela Entrar” está mais puxado num realismo mágico-poético. Está mais para um conto de fadas macabro do que para uma história de terror.
É de uma sensibilidade rara hoje em dia.

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