A “boat house” da família burguesa da Sra. Harper não é apenas símbolo do seu status. É também a câmara escura onde são praticados e ficam relegados os crimes necessários à boa manutenção das aparências e do estilo de vida dos cidadãos de bem. Tudo em segredo, logicamente. A própria configuração do espaço dramático nesta pérola clássica (1949) de Max Ophüls – não por acaso, homem de teatro tanto quanto de cinema – remete simbolicamente ao choque de forças do qual o filme extrai sua grandeza estética.
Na frente, vemos a casa da família, com seus cômodos típicos, muito bem iluminados e limpos. Ambiente onde se desenrolarão aqueles pequenos dramas desimportantes do cotidiano cinza da classe média norte-americana: o pai ausente em viagem de trabalho, o filho David entrando na puberdade e já querendo ser o “homem da casa”, a filha Beatrice envolvida com um namorado que a mãe não aprova…
Mas as consequências mais constrangedoras deste último, o trabalho sujo que ele requerirá será feito nos fundos, na “boat house”, no cômodo sujo, desorganizado e sobretudo escuro. É lá que Bea, num encontro secreto com seu amante – o suspeito Sr. Darby – descobrirá algumas verdades sobre ele e, tentando se livrar dos seus braços, dará um golpe em sua cabeça e fugirá. O homem, desorientado, cairá de um parapeito mal conservado por sobre uma âncora e morrerá.
A mãe, Lucia (Joan Bennett), encontrará o cadáver na manhã seguinte e rapidamente tomará uma péssima decisão: ocultá-lo. Arrasta-o para o barco da família e leva-o para ser despejado mais ou menos longe dali. É aí que a fita passará de melodrama familiar para um autêntico film noir. O título original (“Reckless Moment” = momento atrevido, inconsequente) também se justificará na cena em questão, verdadeira aula de cinema: a movimentação de câmera, os primeiros planos, os raccords,
tudo é feito de uma maneira que a expressividade dos gestos e das expressões faciais atinja o paroxismo. E o que é mais interessante: neste único dos vários momentos dramáticos do filme, a música silencia. Sim, o cinema fala mais alto do que o melodrama. Mas muito dessa estilística toda contagia o filme por completo. Lucia enfrentará as trágicas consequências da sua decisão na figura de um chantagista, o Sr. Donnely (James Mason), que mantém as cartas que Bea trocava com Darby.
A circunspecção da face e da fala de James Mason, em oposição ao medo e à insegurança manifestos em Joan Bennett também dão sabor especial a esta realização cinematográfica. Não contarei mais do enredo. Apenas que outras atitudes “atrevidas” serão tomadas na boat house e que, no final, os cidadãos de bem (Lucia e Bea) se salvarão e a vida voltará ao normal. Mas será que ao normal mesmo? A última cena é a chave de ouro do soneto: extremamente abalada pelo desenlace (sempre secreto) da história,
Lucia tem que se fazer de mãe e esposa solícita, e atender àquela ligação banal do marido para botar a conversa em dia, você sabe, falar da árvore de natal, das travessuras do filho, etc. O noir também se faz na alma, nos fundos escondidos dela. Mas tudo bem. A sujeira da boat house não chegou a atingir – muito – a casa principal. E a figura do marido ausente também é simbólica – até irônica: o Sr. Harper encontra-se em Berlim, ajudando a reconstruir a cidade, limpando-a dos últimos sinais de outros “reckless moments”.

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