Ou até se resolvem, mas descrevendo nos mínimos detalhes os gestos e atitudes envolvidos, o que contribui sobremaneira para aprofundar (ou afundar mesmo) o espectador no universo íntimo da personagem principal, o espião profissional Harry Caul (Gene Hackman). E o mais importante nesse foco é acompanhar as andanças de passos retraídos ou tomados muito temerariamente por ele, em uma busca infrutífera.
O drama é: não há nada que ele possa fazer – dentre o que ele queira fazer. Pois já está consumado o que ele talvez desejasse não ter feito. A partir daí, as conseqüências escapam-lhe absolutamente. Cortou-se o fio que transmite o gesto do indivíduo ao rodar do mundo. Perdido no espaço, Harry perdeu os referentes e as relações: sua “namorada”, amigos e colegas de trabalho que o digam.
Só lhe resta tocar saxofone – à toa – no apartamento desmantelado – à toa. A verdade não existe. Se existe, a interpretação apressada dos fatos – e apenas fragmentos de fatos, nada mais – impede o acesso a ela. Mas, de tudo não se tem em mãos mais do que fragmentos mesmo; e para o trabalho com tais elementos, o único instrumento que se torna possível é a frágil interpretação.
Chega-se inevitavelmente a um impasse. E impasses provocam ansiedade, pânico. O quarto de hotel em que Harry se hospeda, quando chega mais próximo de descobrir a verdade e fazer uma interferência positiva em relação a ela, mostra bem o que é isso. Agir sem conhecer todas as variáveis de uma situação. Ou sem conhecer qualquer variável. E, ainda por cima, responsabilizar-se plenamente pelas decisões.
A cena mais significativa da contradição entre a ação individual e a real dimensão das coisas é a que mostra Harry contando e juntando, meio atabalhoado, o dinheiro recebido pelo trabalho “sujo” que é – no final das contas – apenas o “mcguffin” (pretexto) que dispara as reflexões propostas pelo filme. Harry tenta, mas não pode se enganar. O que ele faz não é somente um trabalho.
Mas o que é, de fato, ele não faz a menor idéia. Ou melhor, faz uma idéia muito equivocada. E pagará por isso. A cena citada acima, dentre outras, é um grande momento de encenação cinematográfica pois traz em seu bojo o sentido do personagem e do filme, de modo muito sutil. E só mesmo a imagem mais demorada e mais fixa – mais “europeia” portanto – é capaz de expressar tal conteúdo adequadamente.
Citando Andrei Tarkovski, percebemos em “A Conversação” a pressão do tempo dentro de cada plano. A questão em Coppola é que se trata de um tempo que urge decisões, ações. Mas estas são impossíveis ou equivocadas, como vimos. Assim, o tempo faz os planos como que explodirem (no segundo caso, graças à pressão interna de cada um), ou implodirem (no primeiro, graças à pressão externa, ou seja, à força exercida em um plano pelos adjacentes, daí a expressividade da montagem neste filme).
A última cena é construída com planos de “explosão” (o desmantelar desesperado e inútil do próprio apartamento em busca de escutas), sendo que a última imagem é de “implosão” (a desistência de Harry, que fica a tocar seu saxofone no meio do ambiente destruído). Um movimento de câmera muito simples mas bem expressivo marca esse último plano, fazendo a “ligação” entre o personagem e o resultado de sua ação anterior. A tensão, colocada desde o começo do filme, não se resolveu, nem arrefeceu.

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