Depois de certo momento de Reflexões…, vem perigosamente à lembrança do espectador o elegante fiasco de Durval Discos (2002, de Anna Muylaert). Mas não nos incomodemos. O filme de Klotzel é (bem) melhor, no sentido em que não comete os mesmos erros – bastante elementares até – de construção narrativa. E como “erros”, não estamos nos referindo à mudança repentina de gênero e tom dentro do filme, mas à mal preparação de terreno para tanto e ao mal desenlace dos resultados, o que faz com que a narrativa perca coesão e pareça – no mal sentido – dois filmes (mal resolvidos) dentro de um. Reflexões de Um Liquidificador, por sua vez, desde o começo, já nos faz suspeitar a que veio, de modo que a “revelação” que ele nos dá lá pelo meio do filme parecerá satisfatoriamente coerente e conseqüente.
Aliás, qualquer espectador um pouco mais viajado pelas sendas da psique humana já desconfiará – ou esperará – que essa história de um velho liquidificador que se comunica com uma velha senhora, aparentemente abandonada pelo marido, não passe de um “disfarce” para o enlouquecimento desta, que transferirá para o eletrodoméstico aspectos um tanto quanto… incômodos da sua personalidade. E isso não poderá terminar bem. A solução encontrada pelo roteiro de José Antônio de Souza pode parecer banal(izante): o espectador poderia esperar outra; mas, definitivamente, não é de todo descabida. É isso o que, talvez, possa ser dito de melhor a respeito do filme. Para não taxá-lo de frívolo, digamos que é uma “crônica”; para não desqualificá-lo como imoral, entendamo-lo como uma piada de “humor negro”.
De resto, a realização é inspirada e correta (profissional como um bom filme de gênero). Reflexões de Um Liquidificador acaba grudando na cabeça do espectador que sai do cinema como uma despretensiosa e suculenta canção pop (o sonho não-realizado do supra-citado Durval Discos). Nós nos pegamos assoviando a – muito irônica – trilha sonora original. Os personagens são todos construídos sob a fôrma do tipo: principalmente a protagonista, Dna. Elvira (Ana Lúcia Torre em ótima atuação), e o investigador de polícia Fuinha (Aramis Trindade). E o humor que se extrai deles é muito bem aproveitado pela história, que brinca com as convenções da narrativa de crime e do drama psicológico.
O filme não se coloca em nenhum momento dentro da infeliz chave do ultrarrealismo de pretensões psico-sociais que tanto assola o cinema brasileiro. É claro que há as tais “reflexões” do liquidificador (cuja voz é a de Selton Mello, charmoso como sempre), mas toda a encenação chama a atenção para o absurdo do caricato: desde o rosto de “Fuinha” até a decoração exageradamente “kitsch” (hoje se diria “vintage”) do pacato e acolhedor ambiente de “casa da vovó” em que moram Dna. Elvira e o marido (Onofre, interpretado por Germano Haiut) – tanto é que, no começo do filme, ficamos até em dúvida se a história não se passa mesmo nos anos 70. E é tudo, logicamente, muito irônico. Com isso, podemos dizer que Reflexões de Um Liquidificador é, para muitos efeitos, um filme de fantasia – que vai muito além, naturalmente, do elemento fantástico que está em sua base: o liquidificador que fala.
André Klotzel realizou em “live action” como que um daqueles desenhos animados para adultos: sarcásticos até a medula, amorais (ou mesmo imorais), muito macabros e incondicionalmente niilistas (por exemplo: Uma Família da Pesada – “Family Guy”, de Seth McFarlane). Os pensamentos do tal liquidificador aproximam-no muito mais da obra de Machado de Assis do que a adaptação “oficial” que o diretor perpetrou há quase dez anos (algo se aprende sempre). Há uma cena em que o antirrealismo cartunesco se apresenta quase como uma profissão de fé – é a chave para o coração do filme: quando Fuinha insiste que o suco de beterraba que encontra no copo do liquidificador se parece com sangue e exige que Dna. Elvira tome um gole (desconfiado de que ela deu um “sumiço” no marido).
Não há como não lembrarmos a famosa definição de Godard a respeito do cinema: “não é sangue, é vermelho”. Aliás, o subtexto de crime passional deste filme, dentro de sua proposta estético-narrativa, lembra algo como… um encontro de Alfred Hitchcock com José Mojica Marins (!). Enfim, tomando o anúncio do filme que saiu hoje no Guia da Folha, vemos aquelas frases de aprovação dos críticos, e todas elas destacam o caráter “inteligente” de um filme que “faz pensar”. Esse é o problema em nosso país: parece que, para que um filme seja legitimado criticamente, ele deve ter (pelo menos alguns) ares de intelectualidade. Não acredito que isso seja um argumento válido, tanto absolutamente (é lógico), quanto em parte. As tais reflexões não são o melhor no filme do liquidificador (se tivessem de sê-lo, então teríamos de dizer que o diretor falhou em seu intento). Não leve tão a sério e curta a brincadeira que o cineasta propõe (propõe mesmo? – ou este seria apenas o filme que EU construí?).

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