“Inception” é um ótimo thriller, especialidade de Nolan desde Amnésia (“Memento”, 2000), e tão imaginativo quanto cabe ao gênero. Não é um filme sobre “sonhos”, que isso fique bem claro. Toda a mise en scène (incluindo os impressionantes efeitos especiais) pensada para reproduzir o universo onírico estrutura-se em função exclusivamente do direcionamento que se dá à ação, dentro da narrativa do “heist” (roubo, golpe, etc). Quando muito, poderíamos dizer que se trata antes de mais um filme sobre a tão midiática “hiperrrealidade”, do que sobre o velho inconsciente desbravado pelos sisudos psicanalistas. Nolan não se deu mais do que o mínimo do trabalho necessário para taxidermizar os personagens de alguma emoção e alguma motivação com as quais o espectador pudesse se identificar.
Com isso, não se deixe levar muito pela supostamente mitológica “Ariadne” (Ellen Paige) que guia o personagem de Leonardo diCaprio (Cobb) pelos labirintos do “subconsciente” (sic). O filme afunda-se em um mínimo de profundidade na justa tentativa de subir além da divisão na qual se bate um Michael Bay; mas não deixa de ser, à sua própria maneira, um “toy movie”, como os dois Transformers (2007 e 2009) deste. Em entrevista à Film Comment (jul/ago 2010), Christopher Nolan admite que a geografia dos jogos de video-game “online” tem muito a ver com a maneira como pensou no universo onírico para o filme, no que aquela possibilita uma interação humana “genuína” e “compartilhada” dentro de um universo virtual. E admite também o como quis que o roteiro não tivesse apenas “jogabilidade”, procurando aprofundar mais os personagens.
Mas o resultado final pende mais para o lúdico mesmo. Principalmente no que a segunda metade do filme está quase inteiramente estruturada numa magnífica montagem paralela, que intercala, sob doses cavalares de tensão e suspense, 3 ações simultâneas (posteriormente, 4) que se passam e se remetem mutuamente não só em espaços diferentes, mas em planos de “realidade” distintos (a rocambolesca ideia do sonho dentro do sonho); no final, haverá logicamente uma convergência, e o mais impressionante de tudo é que todos os acontecimentos são vividos pelos mesmos personagens. É como se Griffith tivesse um surto esquizofrênico. Junte-se isso à trilha sonora embriagante e ao ritmo alucinante da fita como um todo, e teremos uma sensação da grande brincadeira técnica que é o que dá verdadeiramente graça para este filme.

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