O Tempo do Desprezo


A Folha de S. Paulo publicou hoje matéria sobre uma interessante mostra que está sendo lançada em São Paulo e no Rio de Janeiro (“Cinema Brasileiro: Anos 2000, 10 questões”). Em dado momento do texto, após o subtítulo de “Brasil sem saída”, a jornalista escreve:


A primeira pergunta que, no catálogo da mostra, Cléber Eduardo (um dos curadores – nota minha) se coloca é: que imagem do país esses filmes forjaram? “Não é bom [o país] em nenhum dos filmes. Não possui saídas”, responde, norteado pelo olhar amargo de “Baixio das Bestas”, “Quanto Vale ou É por Quilo” ou “O Signo do Caos”.


Bem, não falarei de Rogério Sganzerla, autor do terceiro filme citado, pois confesso que ainda falta eu me dedicar mais à sua obra. Mas, em relação aos cineastas reponsáveis pelos outros dois (respectivamente: Cláudio Assis e Sérgio Bianchi), caberão aqui algumas considerações.


A expressão usada pela reportagem, “olhar amargo”, é bastante feliz e pode ser usada como justa medida para refletirmos acerca dos projetos de cinema desses dois diretores. Principalmente, essa união de substantivo e adjetivo revela com muita clareza o quanto tais cinematografias são antes movidas por idiossincrasias de caráter despudoradamente subjetivo do que por um “retrato” ou “análise” da sociedade brasileira per se.


Todo cinema é discurso, logicamente. Dessa forma, Assis e Bianchi podem com muita legitimidade serem levados a sério. Mas não como se anda fazendo. À sua própria maneira, uma fita como Amarelo Manga (2003) é dotada de tanta realidade e “imagem” do Brasil quanto Xuxa e Os Duendes (2001).


Por quanto tempo ainda continuaremos a ser ludibriados pela retórica fortemente armada de um cinema que remete a nada além da mais simplória e viciosa forma dos velhos e ultrapassados romances de tese (dentro do “naturalismo” literário da segunda metade do século XIX), frutos bichados de um pensamento determinista dos mais preguiçosos?


É uma filosofia altamente questionável; e, se fosse colocada nos filmes enquanto mera filosofia, menos mal – já que o cinema, fazendo-se discurso, é perfeitamente permeável a quaisquer ideologias que lhe sirvam de base. Contudo, o problema que irrita mais verdadeiramente é o fato de professores de escola apresentarem essas películas aos seus pupilos para discutir as “questões sociais”…


Assis e Bianchi são importantes para a cinematografia nacional da última década apenas na medida em que deitam por sobre o país o seu olhar – no sentido mais subjetivo dessa palavra. Chamem de “interpretação” do Brasil se quiserem. Mesmo assim, o pessimismo desses diretores não será menos pueril do que o seu contrário, sugerido por um título como, vejamos… Super Xuxa Contra Baixo Astral (1988).


É impossível não lembrarmos os dois quando lemos a condenação que o jovem François Truffaut faz dos diretores e roteiristas da chamada “Qualidade Francesa” (Henri-Georges Clouzot, René Clément, Claude Autant-Lara, Jean Aurenche, Pierre Bost), que tanto agradavam a crítica daquele país nos anos de 1950:


A vaidade e a arrogância dos diretores de hoje fazem com que estes depreciem seus personagens a bel-prazer. Os cineastas franceses estão se perdendo por falta de humildade. (…) Anátema, blasfêmia, sarcasmo, eis as três senhas dos roteiristas franceses. (…) O artista arrogante pretende-se superior à sua criação; essa presunção justifica, sem absolver, a falência das artes depois da invenção do cinema. (in DE BAECQUE, Antoine. “Cinefilia: invenção de um olhar, história de uma cultura 1944-1968.” São Paulo: Cosacnaify, 2010, p.166)


Citando os nomes dos roteiristas mais prestigiados do momento, o crítico e futuro cineasta destila sua indignação:


Neles, o realismo psicológico dita que os homens sejam fatalmente baixos, infames e estúpidos, e os filmes que eles escrevem, uma vez que convém descrever essa baixeza com o olhar superior daquele que é mais inteligente que os próprios personagens, são ainda mais baixos, infames e estúpidos do que tudo que a arte francesa produzira até o presente. (Idem, Ibidem, p.167)


A quantos e quais dos cineastas e filmes brasileiros da última década as palavras de Truffaut, um dos famosos “jovens turcos” que revolucionaram a crítica de cinema e mais tarde fundariam a nouvelle vague, servirão de carapuça? A crer no depoimento do crítico Cléber Eduardo (da ótima revista online Cinética), citado na Folha de S. Paulo, todos.


Além de Assis e Bianchi (os mais emblemáticos), podemos apontar também para Lírio Ferreira (diretor de Baile Perfumado e Árido Movie), Hilton Lacerda (roteirista de Baile Perfumado, Amarelo Manga, Árido Movie, Baixio das Bestas, A Festa da Menina Morta), a Anna Muylaert que escreveu e encenou Durval Discos, o Heitor Dhalia que co-roteirizou e dirigiu O Cheiro do Ralo, quem mais?


Eis o Brasil “sem saída”. Falta perceber que, na verdade, é nosso cinema que talvez se encontre sem saída.


P.S.: Mas uma bela saída pode ser encontrada aqui:


http://sombras-eletricas.blogspot.com/2010/07/o-grao.html

2 respostas para “O Tempo do Desprezo”.

  1. Polêmico texto, André. Por que Amarelo Manga seria tão desprovido de realidade quanto os filmes da Xuxa? Não discordo necessariamente do conteúdo, mas do método: Como medir o grau de realidade de um filme? Entendo que prefira O Grão aos outros filmes, mas o que faz de le mais real do que os filmes “tese”, pessimistas? Abraço.

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  2. Olá, Bruno.Fiz o texto no calor das impressões despertadas pela reportagem, mas pretendo desenvolver mais as reflexões sobre a tendência “naturalista” no cinema brasileiro. De qualquer maneira, tinha começado a escrever sobre esta em:http://sombras-eletricas.blogspot.com/2009/04/maldicao-da-cor-local.htmlE sobre Cláudio Assis em:http://sombras-eletricas.blogspot.com/2006/11/sobre-o-sr-cludio-assis-e-o-seu-cinema.htmlehttp://sombras-eletricas.blogspot.com/2006/11/continuao-de-cludio-assis.htmlO fato é que os filmes da Xuxa não pretendem exercer aquela que parece ser a missão do cinema brasileiro da retomada: elaborar explicações sociológicas para a nossa miséria e nossa violência. “Forjar uma imagem do Brasil”, como diz o crítico. Por que é que todo filme nacional tem que diagnosticar e sentenciar o país? Muito bem, os filmes de Cláudio Assis são muitas vezes recepcionados pelo público como se fizessem parte dessa tendência de “filmes-tratado”. Mas o que me incomoda é que esse “tratado” é terrivelmente superficial (perto de um Cidade de Deus ou Tropa de Elite) e mais composto, nitidamente, por posicionamentos sectários por parte do diretor do que por reflexões bem dispostas sobre a complexidade do real em si.Desse modo, Assis cria uma fantasia de Brasil equivalente à dos filmes “comerciais”. A diferença é só o sinal: em Amarelo Manga, a fantasia é negativa.Cláudio Assis (e Bianchi) exageram nos determinismos, mostrando – via de regra – os personagens como escravos de baixos instintos (animais), ligados a uma suposta natureza humana negativa e a uma – não tão suposta assim, logicamente – realidade social problemática.Hoje sabemos que tal forma de determinismo ou darwinismo social possui tão pouco de “ciência” quanto a velha antropometria de Lombroso (todas essas eram consideradas ciência séria no XIX).Com isso, mais parece que Assis força a realidade, usando os personagens apenas como “cascas” para guardar a visão de mundo intransigente e rancorosa do próprio diretor. É um julgamento por demais sumário, unilateral e simplista da realidade.Por sua vez, filmes como O Grão dão mais abertura para a complexidade e liberdade do ser humano, para a ambivalência da vida e do meio social. O Grão não deixa de apontar para os problemas, mas não o faz no sentido de “diagnosticar” e “condenar” a realidade brasileira, equilibrando o lado negativo com o “positivo” das vivências subjetivas (o amor, a família, a fábula). É um filme mais sutil.Enfim, acho que é isso. Vamos trocar mais ideias…Valeu pelo comentário!

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