Em Meu Tio (“Mon Oncle”, 1958), o grande Jacques Tati edifica uma decupagem de precisão exata, plano a plano. O acabamento é uma sutil, porém aderente, camada de ironia com a qual o cineasta busca erodir a falácia do Modernismo: na arquitetura, na decoração. As gags concentram-se em escancarar a desconfortável e constrangedora incompatibilidade entre o frio design do século XX e o corpo-ser humano.
Em Columbus (idem, EUA, 2017, dir.: Kogonada), o jovem Jin (John Cho) conta para a ainda mais jovem Casey (Haley Lu Richardson) que o seu pai, um renomado arquiteto e professor, acredita em um “modernismo com alma”. E Kogonada, em sua estreia na direção, recorre a uma decupagem precisamente calculada para extrair – como leite de pedra – alguma alma a partir da arquitetura modernista.
E consegue. Logicamente, o rigor da fotografia e da montagem aqui não será o de Tati, mas o de Ozu. A câmera na altura de uma pessoa sentada sobre os joelhos à maneira oriental (cinema-reverência); os enquadramentos dentro do plano: um jogo de correspondências entre linhas, ângulos em 90º, molduras, representando o próprio estilo moderno presente nas edificações que igualmente enquadram a história.
História bastante sensível (mais uma vez, Ozu) que é a do não-amor entre Jin e Casey. Ele está passando, a contragosto, uma temporada na pequena cidade de Columbus (Indiana, EUA; considerada “Meca” da arquitetura), para acompanhar a progressão do estado de saúde do pai, com o qual não possui boas relações. Ela trabalha na biblioteca da cidade e cuida da mãe, usuária de crack em recuperação.
Ele abandonou a graduação. Ela possui grande talento para a arquitetura, mas se recusa a abandonar a mãe em Columbus para estudar em alguma universidade. O filme acompanha, com rica sensibilidade, os passeios e conversas deste quase-casal, conforme vão se conhecendo e se conectando mais a fundo, emoldurados pelas impressionantes obras arquitetônicas da cidade.
O cinema já foi considerado a maior das artes, por ser entendido como a síntese entre todas elas. E, de fato, há filmes-pinturas, filmes-sinfonias, filmes-poemas. Mas um… filme arquitetônico? Entre o desenho calculado na prancheta e o desenho calculado no set (e na ilha de edição), Kogonada preenche de sensível intencionalidade o estruturalismo e o funcionalismo que inovaram e envenenaram a arte (qualquer que seja) moderna.
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