O Artista do Desastre

O que é o gênio? Força de vontade, vontade de potência? Inspiração, iluminação? Perícia, virtuosismo? Desde a geração romântica, o mundo ocidental vem se debatendo em volta dessa figura, a um só tempo ídolo e pária, mas sobretudo carregada e recarregada de idiossincrasias desconcertantes.

IMG_1423Mas vamos ficar aqui no campo do cinema: Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick, só para trazer os dois exemplos citados por Tommy Wiseau (James Franco) para defender sua “visão” e seus métodos de trabalho pouco ortodoxos (para dizer o mínimo), neste O Artista do Desastre (“The Disaster Artist”, EUA, 2017, dir.: James Franco).

Qualquer cinéfilo diria que ambos são gênios, não? Ambos têm visão (e uma visão muito pessoal, mantendo o espírito romântico), ambos têm perícia técnica. Mas qual o elemento que Wiseau toma para si? A maneira como ambos tratavam seus atores como “gado”: a disfuncionalidade nas relações, idiossincrasia maior dos “gênios”.

Tommy Wiseau não tem perícia técnica (sequer qualquer noção da coisa) e também não tem “visão” (ele acha que tem, mas não tem). Mesmo assim, o “gênio incompreendido” se arvora orgulhosamente ao lado de Hitchcock, Kubrick, James Dean… O espectador começa a rir, com aquela típica vergonha alheia, a palavra ridículo vem à mente.

IMG_1424O ridículo é sempre ridículo aos olhos do outro. O ridículo não sabe que é ridículo. Se soubesse, não o seria; ou o seria com cinismo, autoironia – primeiro sinal, talvez, de uma intrínseca genialidade. Eu disse “intrínseca”, porque a indústria cultural – seus submundos, subprodutos – produz uma outra categoria de gênio.

Um gênio que, tal qual o ridículo, nasce exclusivamente da percepção alheia; e que, também como o ridículo, será assumido pelo próprio “gênio” após muita resistência – ou não se assumirá jamais. É o gênio ingênuo, naïf. Constrangedoramente incompetente, nas formas e(ou) conteúdos. O gênio cuja vontade de potência é inversamente proporcional às suas realizações.

A distância intransponível (em termos de: talento? perícia?) entre suas pretensões e realizações nos faz rir, às vezes muito. Mas também nos faz admirar, não sem certa condescendência piedosa, a sua vontade de potência (a essência ainda romântica de nossa cultura). O cinema de exploitation, os “midnight movies”, desde os anos 50 consagram essa genialidade.

the-disaster-artist-tda-01994_rgb_previewAqui, é claro, cabe uma diferenciação: uma coisa são os filmes B, de baixíssimo orçamento, que “fazem das tripas coração”: o talento nato, espontâneo e intuitivo de seus cineastas mais do que compensa a carência (às vezes extrema) de recursos materiais ou de formação (escolarização, experiência profissional).

Este primeiro é o caso do nosso Zé do Caixão (o internacional “Coffin Joe”): seus filmes são materialmente “ruins”, rimos da sua afetação caricata que, no entanto, se pretende séria (o ridículo); mas identificamos facilmente, nos filmes de José Mojica Marins, uma visão de cinema: inspirada, elaborada, apoiada em profundo repertório.

O segundo caso seria o de Tommy Wiseau: sua “obra-prima”, The Room (2003), é simplesmente ruim, em todos os sentidos. Mesmo assim, adoramos. Porque reconhecemos ali uma pessoa, uma “alma”, que se expõe a nu, sem medo, sem pudor: “Meu Coração Desnudado”, de Charles Baudelaire, poeta fundador da modernidade, enraizada no Romantismo.

IMG_1426Uma subjetividade quase completamente divorciada da realidade objetiva, inclusive nos aspectos mais problemáticos: o respeito, a empatia, a ética. Mas tamanho egocentrismo (egolatria), mesmo em seus elementos abusivos, não deixa de cair dentro da ideologia romântica que ainda encanta nossa sociedade e nossa arte.

A prova disso é o interesse de James Franco em contar a hostória de Wiseau e seu filme-fetiche; e a recepção positiva desta “biopic”: indicações para o Globo de Ouro (nas categorias de melhor filme de comédia e melhor ator para James Franco, vencendo nesta última), indicação para o Oscar (melhor roteiro adaptado).

Agora, a prova de resistência do artista-gênio-disfuncional-incompreendido será a sorte futura de O Artista do Desastre e do seu diretor / ator principal, após as recentes acusações de assédio e abuso sexual, que vieram à tona logo depois da entrega dos Globos de Ouro. No fundo, será a prova de resistência da ideologia romântica em face de questionamentos éticos cada vez mais preponderantes.

 

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