O cineasta Barry Jenkins vem expressando uma sensibilidade bastante apurada desde Medicine for Melancholy (2008), e a consagração oficial veio com o Oscar de melhor filme para Moonlight (2016). Agora, apesar daquela ansiedade geral a respeito do que vem depois de uma obra-prima, Se A Rua Beale Falasse (2018) mantém com firmeza as melhores qualidades do diretor.
Sensibilidade essa que se manifesta de forma muito organicamente ligada a um esmero estético pensado e executado na mesma medida de cuidado, compromisso, dedicação, afeto. A fotografia em grande formato (65 mm) de James Laxton é uma das mais belas, imersivas e rigorosas do cinema contemporâneo. Os contrastes de luz e cor possuem a exatidão para destacar a (beleza) da pele negra e o amor do casal protagonista, em matizes quentes.
Isso ganha um significado ainda mais especial quando se pensa que a tecnologia está longe de ser um instrumento “neutro” nas relações entre mídia e sociedade, e a fotografia serviu, durante muito tempo, de reprodução para padrões de normalização racista. Chama a atenção também a recorrência constante das cores vermelha e verde: nos figurinos e nos cenários (lâmpadas, pinturas de paredes, móveis etc.).
Eis um sutil recurso discursivo de Jenkins: vermelho e verde, junto do preto, são os tons da bandeira pan-africana ou bandeira da libertação negra, criada pela Associação Universal para o Progresso Negro (AUPN) em 1920, durante convenção realizada em Nova York. Sim, este é um filme que se posiciona de maneira inequívoca em relação aos seus conteúdos, o que despertará velhos ressentimentos em parte da crítica (falaremos disso mais adiante).
O lens flare, junto da narração em off da protagonista e de uma trilha que cadencia a emoção, fazem lembrar o lirismo do melhor Malick (A Árvore da Vida, 2011). A alternância entre os tempos da história produz um efeito também especial. Acompanhamos os esforços presentes de Tish (Kiki Layne) e de sua mãe Sharon (Regina King, que ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel) em tentar provar a inocência do namorado daquela, Fonny (Stephan James), acusado injustamente de estupro.
Em paralelo, seguimos etapas passadas da relação de amor e amizade entre os dois jovens, que vem desde a infância de ambos, principalmente os momentos felizes de elaboração de um plano de vida conjugal. No entanto, já sabemos o desfecho trágico. Se A Rua Beale Falasse é adaptação do romance homônimo de James Baldwin, grande representante da literatura e do ativismo afro-estadudinenses, autor de Eu Não Sou Seu Negro.
Haverá – acredite! – quem diga (críticos “profissionais”) que este filme peca pela “afetação”, “frouxidão”, “dramaticidade convencional”, “direção irregular de atores”. Não passa de um daqueles casos, mais uma vez, em que a acusação revela mais a respeito do acusador do que do acusado. É postura da mesma natureza que a dos resenhistas que choramingaram sobre o suposto extremismo político de Bacurau (2019), de Kléber Mendonça Filho.
Tendo em vista a eterna baixa representatividade – humanamente digna – de filmes negros (para usar a expressão da Dra. Robin R. Means Coleman no ótimo livro intitulado Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror: produções feitas por afro-descendentes, para afro-descendentes, sobre suas próprias vivências), vai demorar muito tempo ainda para que dramas negros possuam qualquer coisa de “convencional”.
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