Este sensível longa de estreia do diretor Andrew Patterson é ricamente dotado da qualidade vital do movimento: eppur si muove (no entanto, ela se move) – a Terra, as subjetividades. Movimento do vivido: enquanto os personagens giram no intenso vai-e-vem dos acontecimentos, a câmera jamais deixa de acompanhá-los com um flutuar suave e rigoroso; quando aqueles se encontram estacionados em algum local, a câmera permanece fixa em suas ações e reações, em planos às vezes bastante longos.
Mas o que mais chama atenção na forma cuidadosamente apurada de A Vastidão da Noite – mas sem virtuosismos – é uma cena em particular, na qual um personagem que jamais vemos (Billy) faz um longo relato de uma experiência traumática sua para o programa de rádio conduzido por um dos protagonistas (Everett – Jake Horowitz). Em dois trechos peculiares dessa narração, o quadro fica completamente escuro, e ouvimos apenas a voz cadenciada do narrador.
A grande expressividade desse instante está na sugestão, feita ao espectador, daqueles momentos em que estamos tão compenetrados em uma história oral que até fechamos os olhos, como que para absorvê-la melhor (eu diria visualizá-la melhor, o que causaria aqui um efeito peculiar, uma vez que se trata de um filme – o visual é dado – mas esta história nos é dado apenas ouvi-la). Temos aqui uma representação audiovisual bastante elaborada de uma vivência de compenetração, já beirando as raias do abstrato.
Esta cena, que poderíamos, em princípio, entender como anti-cinematográfica (uma vez que não vemos absolutamente coisa alguma nos dois momentos em questão), é, na verdade, ricamente cinematográfica (cinema é arte AUDIOvisual), uma vez que traz ao filme, de maneira tão particular, a importância da experiência subjetiva do Outro e, sobretudo, do ouvir a palavra / testemunho do outro – experimentar a subjetividade do Outro. Poucos filmes tentam – e conseguem – se aventurar por essas paisagens da alma.
Logicamente guardadas as devidas (e muitas) diferenças, não conseguimos evitar lembrar aqui o longa-metragem experimental Blue (1993), de Derek Jamal, que, durante todo o tempo de exibição (79 minutos), nos faz ouvir as experiências de ser, de viver e de mundo de portadores de HIV narradas oralmente sobre uma tela de fundo indelevelmente azul. Blue é um filme-ensaio na acepção mais acadêmica do termo. A fenomenologia cinematográfica continua viva e bem, obrigado.
A Vastidão da Noite não se estende para tão longe, ainda é um filme de gênero (ficção científica), fortemente inspirado por séries de TV como Além da Imaginação (“Twilight Zone”). Mas, assim como a produção clássica de Rod Serling (em sua primeira encarnação, entre os anos 1950 e 1960) esticou corajosamente as estruturas e o discurso do formato, bebendo de fontes vanguardistas, a estreia de Andrew Patterson não fica atrás na influência.
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