“E essas crianças
Em quem vocês cospem
Enquanto elas tentam mudar o mundo delas
São imunes aos seus conselhos.
Elas sabem muito bem
Pelo que estão passando…”
(David Bowie, Changes)
Uma grande estreia em longa-metragem para a diretora Kim Bora. Arrisco-me a dizer até que é um dos melhores filmes de estreia de cineastas dos últimos anos. A citação acima, de David Bowie, está na epígrafe de O Clube dos Cinco (1985), de John Hughes, e serve para todos os grandes filmes que abordam, com genuína empatia e honestidade, o universo adolescente.
House of Hummingbird é um sensível coming-of-age encenado e narrado com grande lirismo, mas sem melodrama excessivo, sem condescendência. Um filme honesto na proposta e na realização.
E, como as melhores obras do gênero, estrutura-se na intersecção dialética (ou choque) entre o vivido individual e o coletivo: pois o ser-estar-no-mundo não pode ser jamais menosprezado, principalmente quando se trata da adolescência, sob pena de estragar a totalidade da narrativa e sua proposta, quaisquer que sejam.
Eppur si muove (“no entanto, ela se move”), já disse Galileu. Os movimentos internos da alma adolescente não podem ser interrompidos, tampouco pode ser evitada a sua autoconsciência (já disseram David Bowie e John Hughes).
E esses movimentos não repetem – necessariamente – os movimentos da alma coletiva, sequer harmonizam com eles. Mas servem de contraponto significativo, ainda que dissonante.
No filme de Kim Bora, funciona como estribilho o contraste expressivo entre os ritmos interiores da jovem protagonista Eunhee, no geral mais lentos e cadenciados, e os ritmos exteriores de uma Coreia que cresce e desaba a um só tempo, freneticamente.
A menina encontrará um ponto raro de conexão com o Outro na professora substituta, mas a força avassaladora do Mundo / dos acontecimentos colocará uma interposição que será mais um dado a ser processado e integrado à personalidade e à memória da jovem em formação (em nada diferente da experiência adolescente arquetípica).
O resultado final, triste e feliz, inquieto e tranquilo a um só tempo, é o que completa a grande beleza humana que é ser, que é existir, da qual a Arte é veículo de comunicação privilegiado.
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