Thomaz Farkas foi um homem versátil: empresário (sua família fundara, em 1920, a conhecida rede de lojas de óculos e equipamentos óticos chamada Fotótica) e militante socialista. Nascido na Hungria em 1924, Farkas também é um dos grandes fotógrafos brasileiros do século XX, mestre na fotografia do cotidiano das ruas consagrada pelos franceses (Henri Cartier-Bresson, Robert Doisneau).

Após o golpe civil-militar de 1964, Farkas reúne em torno de si um grupo de jovens cineastas engajados e começa a produzir documentários etnográficos em busca das raízes socioculturais do homem do povo brasileiro, bastante inspirados por Dziga Vertov, Jean Rouch, Joris Ivens, Chris Marker. Tal busca pela identidade “pura” do brasileiro era um tipo de projeto bastante caro ao Cinema Novo, que mais se notabilizou nos gêneros ficcionais.
Os principais nomes do grupo eram, além do próprio Thomaz Farkas: Geraldo Sarno, Sérgio Muniz, Paulo Gil Soares, Maurice Capovilla, Eduardo Escorel, Lauro Escorel, Jorge Bodansky e Vlado Herzog. Permaneceram relativamente unidos até o início dos anos 1980 e realizaram, no total, 34 documentários em curta e média-metragem, que compõem o chamado “ciclo Thomaz Farkas”.
Entre 1968 e 1970, eles empreendem viagens pela região Nordeste do Brasil e realizam 19 documentários primordiais que fixaram a vida e a memória do sertanejo em suas mais diversas manifestações, uma investida inédita em nosso cinema até então: a arte (literatura, música, artesanato), a religiosidade, o trabalho (agricultura, pecuária, indústria), a relação com a terra natal, a percepção de si.
Esses filmes são, hoje, documentos valiosíssimos para o audiovisual brasileiro, tanto do ponto de vista antropológico / sociológico, quanto do artístico / cinematográfico. Alguns podem pecar pela adesão um tanto simplista às principais correntes intelectuais / ativistas do pensamento progressista brasileiro nos anos 1960, mas seu grande feito é romper – no Cinema – com a idealização romântico-conservadora do sertão e do sertanejo.
Seguem algumas das principais produções do “ciclo Farkas”:
1. Memória do Cangaço (1964), dir.: Paulo Gil Soares
Uma aula. Propondo-se a explicar o fenômeno do cangaço, o documentário primeiramente dá voz a um professor de medicina legal que só faz por vomitar o mais caricato e anacrônico positivismo racista: determinismo de clima, antropometria e outras excrescências que desejaríamos já mortas em 1964, mas que, a bem da verdade, persistem até hoje. Na sequência, o filme contrapõe uma análise realmente sociológica e desmonta ponto a ponto as falácias do “professor”, a partir principalmente de depoimentos de ex-cangaceiros. Também são entrevistados (e desmentidos) ex-policiais.
O caráter mítico do cangaço é reforçado através das íntimas ligações entre os atos heroicos dos cangaceiros e a poesia dos cantadores (o próprio Lampião escrevia versos). Raríssimas imagens filmadas de Lampião, Maria Bonita e bando completam o valiosíssimo painel documental. Veja este curta antes conhecer os clássicos de Glauber Rocha (Deus e O Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro), ou mesmo o recente Bacurau (Kleber Mendonça Filho, 2019).
2. Subterrâneos do Futebol (1965), dir.: Maurice Capovilla
Um elo bastante frágil na corrente da caravana e na filmografia do grande Capovilla, falecido há pouco tempo (maio de 2021). Aqui, tendo como pretexto o futebol, “grande paixão nacional”, não vemos nada mais do que aquela velha Sociologia de porta de botequim típica do cinema engajado mais ortodoxo e sectário dos anos 60. O curta vale por dois ou três planos do cinegrafista Thomas Farkas que são representação exata do estilo de fotografia modernista que fez dele um dos maiores fotojornalistas do Brasil.
3. Viramundo (1965), dir.: Geraldo Sarno
Um retrato contundente da classe trabalhadora brasileira, dirigido pelo grande Geraldo Sarno, que está em atividade até hoje (veja Sertânia, de 2018, um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos). Vladmir Herzog faz o som direto. São dolorosas as falas dos diversos migrantes nordestinos que deram depoimento: suas histórias de exclusão social e resiliência; mas dói também o discurso dominante que alguns acabam assumindo; e é enervante a fala fria, tecnocrática, do burguês empregador.

Entretanto, no miolo do filme, há um forte desequilíbrio, comum no cinema brasileiro engajado do período: a tentativa simplista e hoje ultrapassada (exceto nos meios mais sectários) em estabelecer relação direta, quase automática, entre a desmobilização (“alienação”, como se gostava de dizer) do trabalhador e a sua vivência religiosa. É o velho e apócrifo adágio alegadamente marxista da religião como “ópio do povo”. Compreende-se, se considerarmos a radicalização da militância mais ortodoxa nos anos 1960.
4. A Cantoria (1970), dir.: Geraldo Sarno
O virtuosismo espontâneo dos cantadores repentistas em todo o seu esplendor. A câmera fixa enquanto dedilham suas violas e cantam com a cabeça baixa e os olhos fechados, como em transe, na concentração extrema de que necessitam como se estivessem para receber as rimas de alguma entidade metafísica, como dádivas divinas. Não há cultura mais, popular, mais primeva do que esta.
5. A Mão do Homem (1970), dir.: Paulo Gil Soares

Uma descrição semi-poética do ciclo dos trabalhos manuais com o couro de gado no sertão nordestino brasileiro, desde o abate do boi (em imagens perturbadoras que evocam O Sangue das Bestas, de Resnais), até a finalização das peças de roupa e acessórios que vestirão o vaqueiro. O comentário sociológico crítico não poderia faltar: é expressiva a panorâmica que vai das sandálias de couro em processo de montagem, no chão da oficina do artesão, aos pés deste, vestidos de chinelos industrializados de uma marca popular – enquanto a voz over do narrador comenta o fato de o trabalhador não ter poder aquisitivo para consumir o produto que fabrica.
5. Jaramataia (1970), dir.: Paulo Gil Soares
Nossa mente e nossa existência invariavelmente urbanas e burguesas, irremediavelmente alienadas – a não ser que nos desterremos do asfalto e nos enraizemos no sertão – jamais conceberá o senso de objetividade prática, cotidiana, de um desprendimento quase blasé, do vaqueiro que marca a ferro o gado, castra-lhe os culhões, serra-lhe os chifres e, no final so longo processo de criação, abate-o. Tudo isso parece a nós um horror inominável, inaceitável. Talvez seja. Mas é um modo – necessário – de vida para tantas comunidades humanas, há milênios.
6. Jornal do Sertão (1970), dir.: Geraldo Sarno
O tema, aqui, é a Literatura de Cordel. As apresentações dos cantadores são impressionantes. Há espaço para encaixarmos certo Romantismo (passadismo, nostalgia) na “caravana Farkas”, enquanto precursora ou vertente menos conhecida do Cinema Novo, em sua crítica intransigente à modernização urbano-industrial que viria para destruir tradições populares rurais de gerações. Montagem de Eduardo Escorel.
7. O Engenho (1970), dir.: Geraldo Sarno
O documentário etnográfico é lindamente temperado por um tom poético, quase mítico (mito-poético), que representa como um processo quase alquímico a transformação da cana-de-açúcar em rapadura. A sensibilidade de Geraldo Sarno contribui sobremaneira para a poesia visual deste curta de apenas 9 minutos, basta um exemplo significativo: um plano em plongée no qual vemos o contorno circular da panela gigante em que ferve o composto ocupar quase a totalidade da tela, enquanto, no centro desta, vemos o contorno circular do chapéu na cabeça do trabalhador que mexe o produto com uma colher grande de madeira, em movimentos igualmente circulares.
8. O Homem de Couro (1970), dir.: Paulo Gil Soares
A vida, visão, sonhos e coração de vaqueiros vivendo e trabalhando de sol a sol em um sertão isolado, primitivo, quase mítico. Vaqueiros por vocação. Sujeitos donos de sua própria história, falando à câmera que vem da cidade grande com a altivez de quem se deixa mirar por crianças curiosas. Aqui não há terceiro-mundo. O mundo desses guerreiros é o primeiro. O mundo deles próprios. O único que lhes interessa. O único de que precisam.
9. Vitalino / Lampião (1970), dir.: Geraldo Sarno
É um dos melhores filmes do ciclo, com o próprio Farkas na direção de fotografia e narração de Othon Bastos. Poucas vezes, o primeiro plano costuma ser usado no cinema de maneira tão bela e significativa quanto aqui, acompanhando os gestos assertivos e pacientes do artista popular ao esculpir a imagem do mito Lampião, em barro. Nessa ação, e no seu registro foto-cinematográfico por Sarno & Farkas, o próprio artista transfigura-se em mito: Demiurgo brasileiro, nordestino, sertanejo.
10. Viva Cariri (1970), dir.: Geraldo Sarno
O estilo cinéma vérité dos documentários sociológicos do grupo de Thomas Farkas atinge o paroxismo na cena de Viva Cariri em que um velho sertanejo, dando um depoimento nervoso na frente da câmera, repentinamente, puxa um revólver e dá três tiros para o alto.
11. A Erva Bruxa (1970), dir.: Paulo Gil Soares
Paulo Gil Soares aborda corajosamente, em plena vigência do AI-5, questões trabalhistas na agroindústria do tabaco no recôncavo baiano. Duas cenas memoráveis: 1. o presidente do sindicato pelego dos trabalhadores afirmando categoricamente que ninguém havia sido demitido e, na sequência (o poder da montagem), o industrial admitindo orgulhosamente que a mecanização o ajudou a enxugar 70% da folha de pagamento; 2. o narrador lamentando que o trabalho de uma indústria familiar paralela, clandestina e precária de fabricação de charutos é utilizado por grandes empresas produtoras que, desse modo, conseguiam se livrar dos encargos trabalhistas – já havia, em 1970, o termo “terceirização”?
12. Beste (1970), dir.: Sérgio Muniz
Cinema de choque: o processo de construção artesanal de uma besta, com gestos carregados de perícia e experiência, no fundo do sertão nordestino, ao som da transmissão de TV que narra o pouso pioneiro do homem (estadunidense) na Lua.

O arcaico e o moderno, o caboclo e o cosmopolita, a periferia e o centro. Costurados na alegoria da arma, do confronto, da guerra: a violência que sempre motivou – e continua motivando – o avanço da técnica e da tecnologia.
Beste é quase uma paródia involuntária do hollywoodiano 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. É o nosso próprio “2001”: terceiro-mundista, subdesenvolvido, pobre, sertanejo, marginal.
13. A Morte do Boi (1970), dir.: Paulo Gil Soares
Não consigo deixar de me impressionar, em minha sensibilidade urbana e progressista do século XXI, com a profunda naturalidade e desprendimento com que os trabalhadores simples do campo lidam com o gado, matam o gado e o “desmontam” até as mínimas partes – tudo se aproveita. É algo desconfortável e inadmissivelmente horroroso e belo, ao mesmo tempo.
14. A Vaquejada (1970), dir.: Paulo Gil Soares
Um jovem Ariano Suassuna explicando a tradição da “vaquejada” no sertão nordestino brasileiro e os elementos de cultura popular por trás dela (que remetem, segundo o próprio, aos torneios medievais), junto de imagens perturbadoras, para a nossa consciência ecológica contemporânea, de violência contra animais.
15. Casa de Farinha (1970), dir.: Geraldo Sarno
A mandioca, que vinga em os todos os tipos de solo: metáfora perfeita para a figura de casca igualmente grossa, resistente, do homem e da mulher sertanejos. A mandioca, alimento central para o povo pobre do sertão, que, no processo de extração da sua farinha, produz uma substância ácida altamente tóxica, como o lavrador que protesta, em frente à câmera, contra a miséria da qual não consegue sair, não importa o quanto trabalhe. A mandioca é um signo. Potencialmente revolucionário.
16. Frei Damião: Trombeta dos Aflitos, Martelo dos Herejes (1970), dir.: Paulo Gil Soares
O choque eisensteniano entre as imagens da religiosidade popular e da devoção incondicional que o povo dedica a Frei Damião e a entrevista com este, em lugar reservado, em que vemos nitidamente, pelo seu olhar e pela sua fala claudicante, que ele é apenas um homem. Nada mais do que um homem.
17. Os Imaginários (1970), dir.: Geraldo Sarno
Não há nada mais poeticamente justo do que dar a alcunha de “imaginários” aos escultores populares de imagens sacras em madeira. E Geraldo Sarno, uma vez mais, tem o talento e o cuidado em fazer com que a forma cinematográfica se aproxime, de maneira igualmente poética, dos conteúdos de que trata.
18. Rastejador, Substantivo Masculino (1970), dir.: Sérgio Muniz
Alguns documentários da “caravana Farkas” reproduziram velhos vícios, mas outros trouxeram uma inovação inestimável para que se tornassem menos paternalistas e demagógicas as relações entre o cinema brasileiro (particularmente o cinema militante de esquerda momentos antes e durante a ditadura militar) e as classes trabalhadoras do país. Nas palavras de Sérgio Muniz:
“Enquanto até o golpe o pessoal queria falar pelo povo brasileiro, esses filmes começam a dar voz ao povo. Isso ocorreu até por um problema de desenvolvimento tecnológico, pois já era possível você pôr o microfone na boca de alguém e ouvir, coisa que até então era complicadíssimo de fazer. Então, você vai ouvir depoimentos de operário, de jogador de futebol, de um cara de escola de samba. Pelo menos, às vezes, essas vozes populares aparecem nas telas do cinema brasileiro.” (in: Marcelo Ridenti, Em busca do povo brasileiro – artistas da revolução, do CPC à era da TV)
O método fica claro na estrutura de Rastejador, Substantivo Masculino, que nada mais faz do que dar voz para que um velho “caçador” de cangaceiros explique as suas táticas e seus métodos de sobrevivência na terra hostil da caatinga. Narração de Othon Bastos.
19. Visão de Juazeiro (1970), dir.: Eduardo Escorel
O uso ideológico da religiosidade popular, pelas classes dominantes mancomunadas com as próprias instituições religiosas, seus líderes e figuras influentes, é algo que deve mesmo ser denunciado. Agora, o desprezo condescendente pelo próprio sentimento religioso do povo e suas vivências é o maior erro, moral e tático, que a mentalidade dita progressista comete. Este documentário e Padre Cícero (1972), ambos do grupo de Thomaz Farkas, registram magistralmente, lado a lado (ou em choque), a religião enquanto vivência popular e a religião enquanto instrumento de dominação.
20. Padre Cícero (1971), dir.: Paulo Gil Soares, Geraldo Sarno, Sérgio Muniz
Idem ao filme anterior.
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Todos estes documentários, e mais alguns, estão disponíveis para streaming no site oficial de Thomaz Farkas, gratuitamente.
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