É incrível como, em menos de um ano, tivemos dois filmes que realizaram como poucos um casamento praticamente perfeito entre música e cinema: Small Axe: Lovers Rock (estreou em novembro de 2020), produção britânica de Steve McQueen; e Summer of Soul (…ou quando a revolução não pode ser televisionada), produção estadunidense de Ahmir-Khalib “Questlove” Thompson que estreou ontem, 02 de julho de 2021.
Em tempos de pandemia, quando se discute (e se teme) o futuro do cinema nas salas de exibição, não deixa de ser irônico que dois dos melhores filmes dos últimos tempos sejam produções realizadas para a TV (tenho ojeriza ao termo “telefilme”, que me lembra os mais rasteiros melodramas folhetinescos que as emissoras compram em pacotes para serem exibidos enquanto não chegam as férias escolares).
Small Axe é da BBC, e Summer of Soul é da plataforma de streaming Hulu – com distribuição internacional via internet pela Disney+ e Star+, e nas salas de cinema pela Searchlight Pictures (braço cult da 20th Century Fox). O primeiro é parte de uma minissérie temática em que cada episódio traz, de fato, um longa-metragem com enredo independente. O segundo é a estreia na direção do baterista do grupo The Roots, do hit “The Seed (2.0)”, de 2002.
Mas o que quer dizer esse “casamento” entre música e cinema? Abel Gance cunhou uma das mais belas frases na tentativa de definir a arte – específica – do cinema, em uma época em que a teoria ainda engatinhava, e as intuições poéticas nos davam belos frutos, o encanto dos pioneiros: “cinema é a música da luz”. Isto pode ser entendido de muitas maneiras, e cada filme operará de maneira diferente.
Em Lovers Rock predomina aquilo que Tarkovski chamava de “a pressão do tempo dentro do plano” (em Esculpir o Tempo), o que exige planos mais longos e, consequentemente, uma presença expressiva menor da montagem. Esse ritmo mais cadenciado, associado ao ritmo da movimentação dos personagens dentro do plano, dos movimentos de câmera e da iluminação que cria uma atmosfera muito específica, dá vida à ideia de Gance.

Em Summer of Soul, temos algo bastante diferente, para além do gênero: aqui, um documentário; lá, um longa de ficção. O editor Joshua L. Pearson (que merece um Oscar pelo trabalho e já tinha assinado também a edição do ótimo documentário What Happened, Miss Simone?, de 2015, dirigido por Liz Garbus) tensiona as potencialidades expressivas da montagem de imagens e sons ao máximo.
É o filme mais eisensteniano em muito tempo. Os principais estilos de montagem estabelecidos pelo mestre soviético se fazem presentes, amalgamados. A montagem métrica que faz muitas cenas pulsarem aos olhos e ouvidos do espectador, combinando-se não apenas os planos segundo um compasso musical, mas também as vozes que cantam ou que dão depoimentos, em cortes acelerados que expressam a tensão política que é a alma do filme.
O próprio trailer já dá uma ideia boa da métrica que governa o longa como um todo. Um bom preview, logicamente, precisa agarrar o espectador pelo pulso, como uma música, gravando-se em nossa memória – basta lembrar do teaser trailer cadenciado de Alien (1979), de Ridley Scott. Neste sentido, o trailer de Summer of Soul é igualmente um dos melhores dos últimos anos.
É claro que a cadência de planos e sons intercalados não prejudica a unidade da ação e a intelegibilidade dos acontecimentos, tampouco os transforma em uma experiência sensorialmente cansativa para o espectador. Nós assistimos ao documentário em um estado de epifania psicodélica, na ponta de nossas cadeiras – ou de nossos pés, como se estivéssemos sendo conduzidos em uma dança que nos leva a esquecer de tudo ao redor.
Esse poder encantatório de Summer of Soul está relacionado à qualidade rítmica de sua montagem (a montagem rítmica de Eisenstein). Questlove e Pearson não deixam cair a peteca, mesmo nos momentos mais lentos do filme (a diminuição no andamento do compasso, necessária para retomarmos o fôlego), ao abordar os artistas gospel que se apresentaram no Harlem Cultural Festival – tema central do documentário.

Métrica e ritmo são mobilizados a serviço do tom (montagem tonal), elemento mais importante do que os dois anteriores, uma vez que carrega o dado emocional do filme, corolário das vivências individuais e coletivas às quais dá expressão e fixa na memória. Cada frame,cada cena e cada sequência de Summer of Soul é prenhe de uma dominante emocional explícita ou implícita que embala o espectador, irresistivelmente.
Assistir às duas horas de duração deste longa, sem pausar, sem piscar os olhos, é uma experiência que poucos filmes são capazes de prover. Poucos sequer pretendem prover uma experiência nestes níveis de imersão sensorial e participação emocional. Ainda menos no formato do documentário. Não digo isto querendo reforçar aquela “regra” de que você não deve pausar um filme em casa nem para ir ao banheiro.
Estou dizendo que você não quererá interromper a exibição de Summer of Soul. Apenas. Mesmo assim, o dado emocional não é o mais importante para o diretor Questlove e para o montador Joshua Pearson. Porque mesmo a emoção está a serviço, aqui, do recado a ser dado. Um recado social, de crítica e engajamento, com valor histórico. Um recado político. Trata-se do Harlem Cultural Festival.
Realizado no verão de 1969, no Harlem (NY), bairro predominantemente negro, latino e pobre, ao mesmo tempo em que, não muito longe dali, acontecia o Woodstock. Este entrou para a História oficial. O do Harlem não. Até agora. Contou com apresentações musicais de muitos dos maiores nomes da black music estadunidense: B. B. King, Stevie Wonder, Gladys Knight and The Pips, Nina Simone, Sly and The Family Stone, The 5th Dimension etc.
A segurança do evento ficou a cargo não da polícia, mas de ninguém menos que os Black Panthers. Atraiu um total de 300.000 pessoas, aproximadamente. Teve apoio do prefeito de NY na época, John Lindsay, definido como um republicano liberal que frequentava o Harlem, ouvia e atendia a sua população – os republicanos não-liberais o acusavam de ser mancomunado com negros, porto-riquenhos e judeus.

Todos os shows foram filmados, mas, com a falta de interesse externo em se produzir algo depois, as fitas ficaram engavetadas até 2019, quando foram redescobertas e se transformaram neste documentário com imagens predominantemente inéditas, além de diversas imagens de arquivo sobre o contexto político-social do Harlem e dos EUA no final dos anos 1960, principalmente quanto ao racismo e à luta pelos direitos civis.
Assim, Summer of Soul (…ou quando a revolução não pode ser televisionada) é uma peça de resistência, de luta, em choque direto contra a historiografia homogênea dos “vencedores”, escovando a História a contrapelo e rompendo as narrativas oficiais, ao resgatar dos escombros (quase literalmente) um momento significativo e inspirador, para que a luta prossiga e a Revolução efetivamente aconteça (quem sabe?).
Com isso, cada frame, cena e sequência do filme, em tudo o que descrevem, narram e representam (apresentações musicais, discursos, entrevistas, depoimentos, imagens de arquivo), são indelevelmente matizados por questões raciais e de classe, no contexto muito específico e tenso do final dos anos 1960: Guerra Fria, Guerra do Vietnã, contracultura, luta pelos direitos civis, guerrilhas socialistas na América Latina etc.
O choque em que são colocadas, por exemplo, imagens e reações da população branca ao pouso do “homem” (branco, estadunidense) na Lua, e imagens com as reações da população negra (para a qual essa “conquista” não faz a menor diferença, dado o cotidiano de opressão em que vivem), força o estabelecimento de relações críticas por parte do espectador – objetivo maior da montagem intelectual de Eisenstein.
Summer of Soul oferece ao espectador uma vivência intensa: sensorial, emocional e racional, na arte do cinema e da música; e pode trazer também um convite implícito à ação política em diversas frentes: desde o âmbito da preservação, valorização e difusão do patrimônio audiovisual (veja-se o descaso governamental para com a Cinemateca aqui no Brasil), até a sempiterna batalha contra o racismo e a pobreza. Já é um dos melhores filmes de 2021.
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